Os compradores estrangeiros pagam mais pela soja convencional e aqui as cooperativas estão dispostas a repassar para o produtor a maior parte desse prêmio. Os dados de campo reafirmam que soja transgênica é duplamente desvantajosa: produz menos e tem custo maior de produção, como acabou de mostrar estudo da Embrapa. Mesmo assim, aumenta a área com a soja da Monsanto.

A ideia de uma tecnologia que beneficiaria produtor e meio ambiente ficou apenas na propaganda. O que prevalece na prática é a força do monopólio sobre o  mercado de sementes e a contaminação, que se dá a campo e também na falta de segregação. É o que mostra a reportagem abaixo.

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Luana Gomes  |  Gazeta do Povo, 12/10/2010

Com lavouras geneticamente modificadas em franca expansão no Brasil, indústrias especializadas no processamento de grãos não- transgênicos prevêem dificuldade de abastecimento

Exportar soja convencional está cada vez mais difícil. Não por falta de comprador, mas de fornecedor. As indústrias que trabalham com este tipo de produto preveem dificuldade de abastecimento no Paraná. Diante da dificuldade para originar grãos convencionais no estado, a Imcopa irá atravessar estados e buscar em Mato Grosso boa parte da matéria-prima trazer para abastecer sua indústria em Araucária, na região metropolitana de Curitiba. Com contratos a cumprir, a Coamo Agroindustrial, com sede em Campo Mourão (Noroeste), está preocupada e também procura alternativas. Quase 90% das 3 milhões de toneladas que a cooperativa espera receber no ciclo 2010/11 serão transgênicos.

A Coamo precisar entregar a clientes europeus dois navios de farelo de soja não-transgênica por mês, cerca de 1 milhão de toneladas. Mas as lavouras convencionais, que no ano passado se estendiam por mais de 500 mil hectares (32% do total), neste ano ocupam menos de 200 mil (12%) na área de atuação da cooperativa, que além do Nordeste paranaense atua também em Mato Grosso do Sul. “Em algumas regiões, não tem nem 5% de soja convencional. E, dos que plantaram, muitos nem vão segregar”, relata o presidente José Aroldo Gallassini.

Sem considerar perdas climáticas, a oferta de soja convencional na área da Coamo deve cair de 1,5 milhão no ciclo passado para pouco mais de 600 mil toneladas nesta temporada. A conta considera uma produtividade média de 3 mil quilos por hectare, marca que foi superada na região na safra anterior, mas que não deve ser ultrapassada neste ano.

Para estimular o produtor a separar e entregar os grãos não transgênicos, a cooperativa está oferecendo um bônus de R$ 2 por saca de 60 quilos. O prêmio, que era de R$ 1,7 na safra passada, teve reajuste de 18% nesta temporada. De acordo com Gallassini, 80% do adicional pago pelo importador à cooperativa será repassado ao produtor. No ano passado, o repasse era de 60% do valor.

“Tentamos negociar um prêmio melhor com o comprador. Mas quase resultou em quebra de contrato. Quase não vale a pena, mas é uma clientela de mais de 10 anos que queremos manter. Então aumentamos o prêmio para motivar o produtor. Poderemos ter dificuldade, mas vamos superar”, diz o dirigente. Aproximadamente metade dos contratos da cooperativa com a Europa exige grãos convencionais. Os principais clientes são França e Alemanha.

A maior dificuldade, relata o presidente da Coamo, é que a negociação com os importadores ocorre entre setembro e outubro, muito tarde para influenciar a decisão de plantio do produtor, que é tomada cerca de três meses antes. “O ideal seria negociar entre abril e maio”, confirma o diretor operacional da Imcopa, José Enrique Marti Traver. “Mas para isso os clientes teriam que antecipar em mais de um ano compra. E não há como prever seu consumo anual com antecedência assim”, defende.

Especializada em processar soja não-transgênica, a Imcopa e se firmou como uma exportadora para o mercado europeu. Suas fábricas, em Araucária e Cambé, têm capacidade de processar 5 mil toneladas do grão por dia, ou 1,6 milhões de toneladas/ano, e produzem itens de alto valor agregado, como farelos com alta concentração de proteína e lecitina de soja. Todo o farelo e metade da produção de óleo é exportada.

Recuperada da crise que a fez desativar parte da linha de produção no ano passado, a empresa paranaense trabalha com capacidade total, mas não prevê grandes problemas de abastecimento, de acordo com Traver. Para evitar falta de matéria-prima, mantém um programa contínuo de originação de grãos convencionais, com fornecedores cativos no Paraná e em Mato Grosso. Assim como a Coamo, oferece prêmio de R$ 2 por saca de soja convencional. “Para incentivar o produtor aqui, porque o repasse lá fora não cresce na mesma proporção”, observa o dirigente.

Preço mais alto compensa custo maior

Apesar do custo de produção da soja convencional ser mais elevado que o da transgênica, alguns agricultores de Campo Mourão, na Região Centro-Oeste do estado, ainda optam pelo grão sem modificação genética. A bonificação das cooperativas a produtores que cultivam a convencional e a produtividade maior são os principais atrativos das sementes sem transgenia.

A soja convencional produz mais, rende uma bonificação de R$ 2 por saca e ainda, é mais fácil de comercializar”, enumera o agricultor Alois Zmuda. Ele pretende plantar, nos próximos dias, 65 hectares com soja convencional. Na safra passada, ele colheu uma média de 3,6 mil quilos por hectare. “E toda a produção foi vendida com facilidade, por ser convencional”, lembra.

Zmuda conta que cultiva soja não-transgênica há mais de 25 anos e que por isso já conhece bem as variedades que produzem melhor. “A transgênica tem custo maior, mas mesmo assim compensa plantar convencional”, diz. O desembolso por hectare, relata, é de, respectivamente, 15,28 sacas e 16,5 sacas por hectare.

Gargalo não está no campo, mas na pesquisa, diz indústria

Líder absoluta nos campos brasileiros, a soja transgênica vai ocupar 80% da área nacional destinada à cultura na safra 2010/11. A estimativa é da Monsanto, multinacional norte-americana detentora da tecnologia Roundup Ready (RR), a única oleaginosa geneticamente modificada disponível atualmente no mercado nacional. A projeção considera dados de produção e comercialização de sementes da empresa no país.

Se as contas da Monsanto estiverem certas, quase 55 milhões das 68 milhões de toneladas que, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), devem ser colhidas no Brasil no ciclo 2010/11 serão de soja transgênica. Na safra passada, ainda segundo os cálculos da multinacional, as sementes GM cobriram 73% dos 23,5 milhões de hectares que foram cultivados com a oleaginosa no país, o equivalente a pouco mais de 50 milhões de toneladas.

“Como no Rio Grande do Sul, quase 100% dos produtores já usam a tecnologia, a expansão deve ocorrer no cerrado”, detalha o diretor comercial da empresa, Antonio Smith, lembrando que nos Estados Unidos os transgênicos correspondem a 90% da produção da oleaginosa e na Argentina o porcentual é de quase 100%.

“A biotecnologia é um caminho sem volta. Na soja e, ainda mais rapidamente, no milho. Daqui a alguns anos, só haverá lavouras transgênicas”, prevê o presidente da Coamo, José Aroldo Gallassini. Ele lembra que a soja GM levou cerca de cinco anos para alcançar cobertura de 70%, índice atingido pelo milho transgênico em apenas três anos. “Se você falar para o produtor: ‘Olha, te pago um prêmio de R$ 10 por saca pela soja convencional’. Acho quem nem assim ele plantaria”, diz. O gargalo, afirma o diretor operacional da Imcopa, José Enrique Marti Traver, não está no campo ou no mercado, mas na pesquisa. Para ele, a aposta massiva dos produtores brasileiros na transgeníase acontece porque investe-se mais na pesquisa e desenvolvimento de variedades geneticamente modificadas do que em sementes convencionais.

Gallassini endossa a avaliação de Traver. Segundo o dirigente da Coamo, foram lançadas neste ano oito novas variedades de soja transgênica, mas apenas uma convencional. No ano passado, essa relação foi de 12 para 2. Segundo ele, além de mais numerosas, as sementes GM seriam mais produtivas. Para lançar uma nova variedade de soja geneticamente modificada as empresas precisam primeiro desenvolver a tecnologia usando grãos convencionais, explica Traver. “Mas essas sementes muitas vezes nem chegam ao mercado porque as empresas não têm interesse em comercializar o produto convencional”, diz.

O problema, afirma, é que a legislação brasileira não estimula o desenvolvimento de novas variedades não-transgênicas. A Lei de Proteção de Cultivares (LPC), que regula o mercado de sementes convencionais, protege os direitos intelectuais de criação, mas não prevê a cobrança de royalties como a Lei de Patentes, que rege o mercado GM. “Precisamos uniformizar a legislação para não desestimular a produção de uma ou de outra. Se continuar como está vai virar tudo transgênico mesmo, por questões econômicas”, considera Traver. Para ele, o grande desafio a vencer é viabilizar as duas opções de forma que o direito de livre escolha seja assegurado tanto ao produtor quanto ao consumidor.