Arquivo

Arquivo da Categoria ‘agrotóxicos’

Livro reúne mais de 750 estudos que apontam riscos e incertezas dos transgênicos

21, março, 2017 Sem comentários

Rede Brasil Atual, 21/03/2017

por Cida de Oliveira

Desprezadas por autoridades de saúde e meio ambiente de vários países, essas pesquisas científicas desmascaram o mais poderoso e perverso ramo do agronegócio e a mitologia que sustenta sua propaganda

São Paulo – Cada vez mais comum em todo o mundo, a doença celíaca é causada por inflamações intestinais que levam a deficiências nutricionais, alterações no sistema reprodutivo, inclusive infertilidade, e aumentam as chances de desenvolvimento de doenças na tireóide, insuficiência renal e câncer. Estudo publicado em 2013 pelo pesquisador independente Anthony Samsel e Stephanie Seneff, do Laboratório de Inteligência Artificial do Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT), ambos dos Estados Unidos, sugere que o glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, da Monsanto, é a causa mais importante nessa epidemia. Os pesquisadores perceberam que as inflamações que levam à doença celíaca são muito semelhantes àquelas encontradas por outros estudos, que constataram alterações em bactérias intestinais de peixes expostos a esse herbicida.

O glifosato, agrotóxico mais usado em todo o mundo, é famoso também por inibir a ação de algumas enzimas digestivas, levando à deficiência em ferro, cobalto, molibdênio, cobre e outros metais raros, associada a distúrbios como infertilidade, abortos e malformações congênitas, comuns à doença celíaca.

Segundo pesquisadores, a presença de resíduos do herbicida no trigo e em outras culturas aumentaram provavelmente devido ao uso de produtos, entre eles o próprio glifosato, para uniformizar a maturação das plantas e facilitar a colheita. Nesse processo tecnicamente chamado de dessecação, as plantas absorvem muito mais venenos. Esse amadurecimento artificial é comum em muitas culturas, e pode ter ligação, por exemplo, com o aumento de insuficiência renal entre os trabalhadores da cana de açúcar da América Central.

O trabalho dos norte-americanos Samsel e Seneff é um dos mais de 750 estudos científicos internacionais reunidos no livro Lavouras Transgênicas – Riscos e Incertezas. Fruto da pesquisa de Gilles Ferment, Leonardo Melgarejo, Gabriel Bianconi Fernandes e José Maria Ferraz, está disponível para download gratuito desde 2015. A obra foi patrocinada pelo Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Agrário do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

Embora os links sejam direcionados para bases de referência estrangeiras, com artigos escritos em inglês, as apresentações dos tópicos sobre impactos ambientais e à saúde, especialmente, são escritos em português. Com texto acessível e claro, é uma alternativa para pessoas que queiram exercer seu direito à informação. Especialmente em relação a um outro direito humano: o da alimentação adequada e segura.

Ao longo de seis meses, com ajuda de colaboradores em universidades, centros de pesquisa e organizações, esses especialistas em agroecologia – tema que atrai cada vez mais o interesse de pesquisas científicas – e em agricultura convencional, transgênicos, agrotóxicos e toda sua relação com saúde e meio ambiente catalogaram toda a pesquisa internacional. E constataram o tamanho do descaso das autoridades reguladoras do setor.

Sistematizaram estudos sobre os riscos à saúde e ao meio ambiente, chegando ao ponto de questionar impactos na interação entre as plantas transgênicas e convencionais, com outros organismos, a sobrevivência de transgenes à digestão e inúmeros outros processos químicos e biológicos. Não é à toa que esses estudos sejam desprezados por autoridades reguladoras: em geral, seus autores, com o rigor científico, desmentem o discurso hegemônico de que os transgênicos não apresentam perigos.

No final de fevereiro, foi lançada a edição em inglês. A exemplo da versão original, Transgenic Crops foi bem recebida por entidades nacionais e estrangeiras porque traduz os argumentos para o bom debate para o idioma dominante nos meios acadêmicos e científicos, além de poder subsidiar organizações em vários países. E a exemplo da primeira edição, esta também foi execrada pelo agronegócio e setores por eles controlados.

livros.jpg

Com edições em português e em inglês, Lavouras Transgênicas está disponível para download gratuito

Soja “Maradona”

A chegada de Transgenic Crops marca os 20 anos das primeiras sementes de soja contrabandeadas da Argentina, a famosa soja “Maradona”. Tidas como mais baratas e mais produtivas que as convencionais comercializadas no Brasil, seduziram agricultores do Rio Grande do Sul.

De lá para cá, o país foi se tornando terreno cada vez mais fértil para a lucratividade das transnacionais. E com as bênçãos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNbio), tem aprovado todos os pedidos para pesquisa e comercialização de novas plantas geneticamente modificadas, além de estudos com animais e vacinas, com uma facilidade jamais vista em outros países.

O resultado é que o Brasil  tem aumentado sua área cultivada com transgênicos. Em 2015, eram 44,2 milhões de hectares, 5% maior que a do ano anterior, conforme o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA). De toda soja produzida no país, 94% é transgênica. No caso do milho, esse percentual é de 84%, e 66% nas culturas de algodão.

“A liberação dos transgênicos ameaça o direitos do agricultores de seguirem plantando as sementes de sua preferência, ameaçando também a base genética da qual depende o próprio futuro da nossa alimentação. Uma plantação contaminada não pode produzir sementes para plantio no ano seguinte pois assim espalhará a contaminação. O agricultor deve recorrer a colegas, feiras de sementes ou pesquisadores que tenham aquela semente para poder voltar a plantá-la. No caso das plantações certificadas como orgânicas o agricultor ainda enfrentará um prejuízo econômico por não poder vender sua plantação como orgânica”, alerta o agrônomo Gabriel Fernandes, da equipe executiva da AS PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, do Rio de Janeiro.

Em duas décadas, os transgênicos “inovaram” ao introduzir plantas resistentes a herbicidas, que exigem mais e mais agrotóxicos, e plantas que produzem seu próprio inseticida. É a soja, exportada principalmente para a produção de ração animal; o milho, que vai ser usado em alimentação infantil e até na produção de cerveja; o algodão, usado para a fabricação e óleos e outros subprodutos. Eventuais ganhos de produtividade resultam mais da planta em si do que da modificação genética que sofreu.

De lá para cá, o que se assiste é a crescente pressão do agronegócio, que conquista espaço no parlamento, no governo e nas agências que deveriam regular o setor, e não serem controladas por ele. O interesse da indústria e de ruralistas é defendido, entre outras coisas, com o falso consenso da falta de estudos que comprovem os seus prejuízos à saúde e ao meio ambiente – daí a importância de Lavouras Transgênicas.

“Há muitos cientistas, inclusive dentro da CTNBio, que fazem vista grossa para publicações científicas que sustentam a dúvida e, ao mesmo tempo, enaltecem os argumentos de propagandas veiculadas em campanhas de marketing, que reafirmam bobagens com a ilusão de que as lavouras transgênicas teriam provocado redução no uso de agrotóxicos, quando este quadruplicou. O avanço dos transgênicos ampliou e amplia mais, ano a ano, o uso no Brasil de venenos cada vez mais tóxicos, com impactos sobre a saúde e o ambiente”, afirma o coordenador do Grupo de Trabalho de Agrotóxicos e Transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Leonardo Melgarejo, e ex-membro da CTNBio.

 Parcerias

os4.jpg
Ferraz, Gilles, Melgarejo e Gabriel (sentido horário): seis meses de pesquisa em bancos de dados estrangeiros

As instituições que produzem pesquisa para embasar os pareceres favoráveis à indústria das sementes e dos venenos são universidades, empresas de pesquisa públicas. São as mesmas que produzem o conhecimento que contesta esses dados. Como há diminuição do financiamento público para pesquisas, as empresas de organismos geneticamente modificados e agrotóxicos seduzem pesquisadores com verbas. E tem crescido o número de empresas privadas constituídas por pesquisadores egressos de universidades e empresas de pesquisa pública, com a finalidade específica de elaborar experimentos que dão pareceres favoráveis às empresas.

“Pesquisas feitas com verbas de empresas em parceria com órgãos públicos geralmente têm contratos com cláusulas que proíbem a divulgação dos dados obtidos sem a autorização da contratante. Ou seja, só serão divulgados dados se os resultados forem favoráveis. Se forem desfavoráveis,  não serão publicados. Assim, temos empresas públicas e universidades públicas trabalhando para o interesse das empresas privadas. Uma parceria interessante para as multinacionais, que apenas pagam os salários dos pesquisadores e professores”, afirma o pesquisador aposentado da Embrapa José Maria Ferraz, pesquisador convidado do Laboratório de Engenharia Ecológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp0 e ex-membro da CTNBio.

Para os autores de Lavouras Transgênicas, o avanço dessas culturas e a perspectiva do uso de agrotóxicos cada vez mais potentes para romper a resistência de algumas plantas – uma reação da natureza – apontam para tempos ainda mais sombrios. No entanto, essa perspectiva sustentada por uma conjuntura favorável apenas para os que lucram com o envenenamento do meio ambiente e com a doença das pessoas, não é inexorável.

A transição de volta à agricultura livre de transgênicos é perfeitamente possível. Basta consciência e mobilização social para exigir o abandono dessas sementes, e apoio técnico e financeiro para o agricultor passar a adotar sistemas de rotação de culturas, consórcios, plantios intercalados ou cultivos de cobertura e adubos verdes. Com isso é possível recuperar a vida do solo e dar os primeiros passos rumos a uma agricultura sustentável para todos.

Os alimentos do mundo têm dono, na GloboNews

13, março, 2017 Sem comentários

 

Assista aqui: https://youtu.be/So01xsMjdtw

 

bayer_mon

CIDADES E SOLUÇÕES

Os alimentos do mundo têm dono

Você sabia que um grupo muito pequeno de empresas controla os alimentos do mundo, produzindo a maior parte das sementes, os fertilizantes e até os agrotóxicos para combater as pragas?! Essas gigantes do mercado definem o que você encontra com mais facilidade no supermercado ou no hortifruti. Nos últimos anos, fusões e incorporações, como o anúncio da compra da Monsanto pela Bayer, tornaram esse mercado ainda mais restrito. No Cidades e Soluções dessa semana, você vai ver como isso pode afetar a sua vida e o alimento que vai para sua mesa.

Segunda-feira, 21h30, na GloboNews

 

Soja convencional é alternativa em áreas com plantas daninhas resistentes ao glifosato

21, fevereiro, 2017 Sem comentários

Antes era aplicar o glifosato para economizar outros produtos, agora é aplicar outros produtos para economizar no glifosato…

 
buva_py

 

Buva viceja em meio a campo de soja transgênica em Alto Paraná, Paraguai. Resistência de plantas espontâneas a herbicidas aumenta o uso de químicos e enseja novos pacotes pela empresas, como  o2,4-D, da Dow, e o Dicamba, da Monsanto. Foto: AS-PTA

 

 

 

 

::

Embrapa, 20/02/2017

Soja convencional é alternativa em áreas com plantas daninhas resistentes ao glifosato

A praticidade do uso de glifosato no manejo de plantas daninhas em soja RR é um dos motivos que fazem com que produtores optem por cultivares transgênicas. Porém, com o aumento da incidência de ervas tolerantes e resistentes a esse herbicida, o cultivo de soja convencional passa a ser uma boa alternativa.

Para o pesquisador da Embrapa Sidnei Cavalieri, como muitas vezes o produtor já precisa utilizar outros mecanismos de ação na soja RR, o manejo e o custo operacional acabam não sendo muito diferentes daqueles empregados em lavouras convencionais.

“Optando pela soja convencional, o produtor vai utilizar herbicidas tradicionalmente usados, sem o glifosato. Ele vai economizar essa aplicação do glifosato. Então, entrando com uma soja convencional, seguida da aplicação de um pré-emergente ou de pós-emergentes com outros mecanismos de ação, realiza o controle da mesma forma, possibilitando ter maior ganho financeiro, comparado à soja transgênica, por conta do prêmio”, afirma o pesquisador se referindo ao maior valor pago pela soja convencional. Atualmente, o bônus chega a R$ 10 por saca em algumas trades.

Conhecimento da área

Para cultivar soja convencional, uma das exigências é que o produtor conheça muito bem sua área, quais as espécies de plantas daninhas mais comuns e qual o grau de infestação delas. A partir daí é que poderá definir a forma de manejo dessas invasoras e quais herbicidas utilizar.

O pesquisador ressalta ainda a importância de sempre se trabalhar com herbicidas pré-emergentes, garantindo maior segurança no controle das plantas daninhas.

“No caso de soja convencional, gosto de recomendar a aplicação de herbicida pré-emergente para possibilitar que a cultura se desenvolva no limpo desde o início. Até porque temos uma limitação quanto ao estádio de controle com pós-emergente. Se, por ventura, começar a chover muito na época em que a soja está se desenvolvendo e passar o ponto indicado para o controle, muito possivelmente o produtor terá dificuldade de controle usando somente pós-emergentes. Dai então a aplicação fundamental dos pré-emergentes, com os pós-emergentes entrando para complementar o controle”, orienta o pesquisador Sidnei Cavalieri.

Soja livre

Estas e outras orientações o pesquisador Sidnei Cavalieri passou aos produtores e técnicos que participaram do Dia de Campo do Programa Soja Livre realizado na Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop (MT), nessa segunda-feira, dia 20.

O evento apresentou oito cultivares de soja convencionais desenvolvidas pela Embrapa, Agronorte e TMG e que são recomendadas para o cultivo em Mato Grosso. Entre os materiais há diferentes características de ciclos produtivos e de resistência a nematoides. Todos, contudo, com alto potencial produtivo.

O dia de campo ainda abordou o grande mercado da soja convencional, atendendo, sobretudo, aos países Europeus e, em demanda crescente, a China e a Rússia.

O Programa Soja Livre é coordenado pela Aprosoja e Embrapa, juntamente com uma rede de parceiros e busca garantir a oferta de sementes de soja convencional no mercado, mantendo o direito de escolha do produtor.

Além do evento em Sinop, outros dez eventos estão sendo realizados em todas as regiões de Mato Grosso nesta safra. A programação de dias de campo segue esta semana com eventos em Sorriso, no dia 21, em Tangará da Serra, dia 22, e em Deciolândia no dia 24.

Conheça as cultivares de soja convencionais da Embrapa e saiba mais sobre o Programa Soja Livre

Gabriel Faria (mtb 15.624 MG JP)

Embrapa Agrossilvipastoril

agrossilvipastoril.imprensa@embrapa.br

Telefone: 66 3211-4227

– Mais informações sobre o tema

Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)

www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

 

 

 

 

 

 

 

 

As mentiras sobre o glifosato

10, fevereiro, 2017 Sem comentários

OAB/RJ discute danos dos agrotóxicos e retrocessos na legislação ambiental

19, dezembro, 2016 Sem comentários

 

AS-PTA, 18/12/2016

A Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/RJ promoveu, no dia 9 de dezembro, um debate sobre os danos dos agrotóxicos ao meio ambiente e à saúde humana, durante o qual também foi discutida a questão dos transgênicos e os retrocessos na legislação ambiental.

Com o tema “Agrotóxicos – uso, exposição e legislação: avanço ou retrocesso?”, o evento reuniu especialistas em direito e meio ambiente, que destacaram a importância da população ter mais informações sobre as consequências do uso de pesticidas. “É importante a sociedade saber o que está acontecendo em relação a essa questão. Precisamos ampliar o debate e a mobilização, e tomar medidas concretas para reverter o quadro atual”, afirmou Mariana Picanço, secretária-geral da Comissão de Bioética da OAB/RJ.

A defensora pública Elida Seguin concordou: “Estamos jogando para debaixo do tapete a discussão sobre os efeitos do uso de agrotóxicos. E quando não conhecemos algo, somos presas fáceis de manipulação. É através da informação que capacitamos as pessoas a debater essas questões”.

Para ela, não existe a menor dúvida que os agrotóxicos afetam a saúde das pessoas, direta ou indiretamente, e que seus efeitos nocivos passam, inclusive para os descendentes, com a malformação de fetos. “Paramos de falar em justiça ambiental!”, lamentou. Também destacou que os trabalhadores são os mais afetados pela falta de uma Política Nacional de Saúde Ambiental: “Não há interesse em jogar luz sobre doenças profissionais resultantes de problemas ambientais”, afirmou Elida.

Durante o debate, Virgínia Guimarães, professora da PUC-RJ de Direito Ambiental, criticou a PL 3.200/2015, que pretende mudar a atual legislação sobre os agrotóxicos. “A atual lei, promulgada em 1989, um ano após a Constituinte, foi uma conquista dos movimentos sociais”, lembrou. E destacou que ela estabelece, entre outras medidas, o registro prévio de todos os agrotóxicos; a proibição das empresas de substituírem no mercado um pesticida por outro, que seja mais maléfico; a garantia dos direitos difusos; o descarte adequado das embalagens; e regras para a publicidade desses produtos.

Segundo explicou, nesse PL estaria incluída a criação de uma Comissão Nacional de Fitossanitários, nos moldes da CTNBio, que teria a competência exclusiva de opinar sobre a liberação de agrotóxicos: “Um órgão assim teria os mesmos problemas que já vemos na CTNBio: falta de transparência e de independência”, afirmou Virgínia.

A professora da PUC também criticou que, nesse projeto de lei, esteja previsto o conceito de “risco aceitável”: “Isso é uma novidade, já que essa ideia não existe na atual legislação sobre agrotóxicos. E aí surgem duas questões: o que é ´risco aceitável´? E quem vai defini-lo?”, questionou. E acrescentou: “Se esse PL for aprovado, a primeira mudança será a substituição do termo ´agrotóxico´ por ´defensivo fitossanitário´. Essa mudança teria várias consequências práticas. Vou citar apenas duas: afetaria a forma como a comunicação seria feita ao consumidor e tiraria vários produtos da lista de agrotóxicos regulados hoje em lei”, destacou.

Fernanda Bianco, presidente da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/RJ (CBB), também criticou a PL 3.200 e assinalou que “a expressão ´fitossanitário´ dá a conotação de que é saudável, para o meio ambiente e o homem”. Lamentou ainda que a Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade) que questionou no Supremo Tribunal Federal a criação da Lei de Biossegurança esteja aguardando há mais de dez anos a designação de um relator para ser analisada.

Na sua opinião, “não podemos esquecer que o país é recordista no uso de agrotóxicos. E não é só o trabalhador rural que sofre os impactos do seu uso. Os efeitos são sentidos, em alguma medida, por toda a população. Infelizmente, temos lidado com a lógica do ´fato consumado´. Mas não podemos pensar que este é um problema sem solução”, afirmou a presidente da CBB.

A questão dos transgênicos

O agrônomo da AS-PTA Gabriel Fernandes durante o debate destacou que, em relação aos transgênicos, há muitas controvérsias, incertezas, ocultamento de informações, medidas insuficientes de controle e de acompanhamento, além de avaliações científicas contraditórias. “Vários estudos mostram que os resultados da modificação genética são diferentes dos esperados. A hipótese do determinismo genético é polêmica. É muito difícil controlar e prever como o metabolismo das plantas modificadas vai funcionar. Por exemplo, no caso do feijão transgênico, apenas dois tipos, dos 22 desenvolvidos ´funcionaram´. No entanto, essas duas espécies, após serem aprovadas pela CTNBio, foram posteriormente deixadas de lado pela Embrapa”.

Gabriel assinalou que, segundo a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, órgão ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS), o “Roundup é potencialmente cancerígeno. E, apesar disso, é o mais usado no Brasil”, acrescentando que as regiões onde há avanço da monocultura baseada no uso de sementes transgênicas é “onde mais se usam agrotóxicos”.

Também chamou atenção para a iniciativa de revisão do papel regulatório da Anvisa e para a proposta que está na Câmara dos Deputados no sentido de converter em PL uma Política Nacional de Redução de Agrotóxicos, apresentada aos congressistas por iniciativa da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

O agrônomo contestou a ideia de que os produtos orgânicos são, necessariamente, mais caros: “O preço tem a ver com sistemas de transporte e de logística, entre outros fatores, e não com o fato de serem orgânicos”. Mas reconheceu o desafio de tornar esses alimentos mais acessíveis à população, sobretudo nas grandes cidades. Para isso, na sua opinião, entre outras medidas, é preciso mudar nossos hábitos cotidianos. “Temos que repensar a lógica da praticidade, que nos faz querer comprar todos os alimentos no mesmo lugar e ao mesmo tempo, ou seja, tudo em um grande mercado, que muitas vezes não oferece produtos orgânicos”.

Retrocessos na legislação ambiental

Para Virginia Guimarães, o PL 3.200, sobre os agrotóxicos, se insere em um conjunto de iniciativas que pretendem desmanchar a legislação de proteção ambiental, que vem da década de 1930. “O discurso, nos últimos anos, é de ´aperfeiçoamento´ da legislação. Falam em ´flexibilização´ e ´regulamentação para diminuir a burocracia´. Na verdade, o que vemos é uma ofensiva contra os direitos sociais e os direitos difusos. São tantas iniciativas com esse objetivo que a sociedade mal consegue acompanhar”, lamentou.

Destacou que os setores mais conservadores “estão a cada dia mais fortes no Congresso e pautando a agenda ambiental do país. Não é ´teoria conspiratória´. Eles são muito organizados. E não participam só das comissões que tratam de temas diretamente ligados à questão ambiental, como a de Meio Ambiente ou Saúde. Também estão em outras comissões, como a de Educação. O fato é que setores da economia entendem que o direito de propriedade é absoluto”.

Virginia Guimarães também lembrou que a primeira grande vitória dos que defendem esses retrocessos na legislação ambiental foi a aprovação da Lei de Biossegurança, em 2005, “que tem servido para liberar o uso e comercialização de transgênicos”. E acrescentou que, “sete anos depois, a bancada ruralista ruralista teve uma nova vitória, com a aprovação do Código Florestal, apesar da rejeição da área acadêmica e científica e da própria população, como mostraram pesquisas de opinião na época”, afirmou.

Por último, criticou a PEC 65/2012, que “pode detonar o licenciamento ambiental no Brasil. É um retrocesso enorme. E não se trata de ´apego a leis antigas´. A questão é que esse PL coloca em risco direitos sociais e difusos arduamente conquistados”, destacou a professora da PUC.

 

– por Cláudia Guimarães

::

OAB-RJ convida: Agrotóxicos – uso exposição e legislação

2, dezembro, 2016 Sem comentários

agrotoxicos-oab-rj-09dez2016

 

Golpe na Anvisa: para agência, agrotóxico na comida é “aceitável”

28, novembro, 2016 Sem comentários

A Anvisa publicou na última sexta-feira (25) um novo relatório do Programa de Avaliação de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). O PARA cumpriu, nas edições de 2010 a 2012, um papel importantíssimo, oferecendo à população acesso à informação de que havia agrotóxico nos alimentos que chegam à mesa. Em 2010, por exemplo, soubemos pelo PARA que em 37% dos alimentos não foram encontrados resíduos de agrotóxicos. Esse número caiu para 22%, em 2011, e depois voltou a 35% e 37% nas duas edições de 2012.

Desde então, o consumo de agrotóxicos no Brasil subiu 11%, atingindo 914 mil toneladas em 2014. As intoxicações por agrotóxicos agrícola notificadas subiram 17%, chegando a 4423 registros em 2014.

Mas, surpreendentemente, o relatório da Anvisa que analisa os resíduos de agrotóxicos entre 2013 e 2015 mostra que a situação está ótima. 42% das amostram estão limpas, e “apenas”  1% das amostras representa risco agudo à saúde. Nesse caso, recomenda a agência, lavagem com água corrente com bucha ou escovinha pode reduzir o nível de agrotóxicos.

Será possível?

Há vários problemas no relatório do PARA 2013-2015. Vamos colocar apenas alguns deles:

  • De acordo com dados do Ibama (2014), 56% do consumo de agrotóxicos no Brasil se concentra em duas substâncias: glifosato e 2,4-D. Nenhuma das duas foi testada no PARA. Além disso, o número total de agrotóxicos testados diminuiu.
  • Para cada cultura, a quantidade de amostras por ingrediente ativo é irregular. Por exemplo, para o arroz, 746 amostras foram testadas para o Tebuconazol, mas somente 247 para o Tiametoxam. Neste caso, é muito difícil fazer afirmações estatísticas, e tirar conclusões seguras.
  • A conclusão de que apenas 1% dos alimentos analisado representa risco agudo à saúde oculta diversos outros riscos. O primeiro deles é das doenças crônicas, como câncer, depressão, suicídio, doença celíaca e outras que aparecem ao longo de muitos anos de exposição. Outra falha grave é desconsiderar a multiexposição, já que, como mostra o próprio relatório, uma grande parte das amostras apresenta mais de um agrotóxico. Não se sabe os efeitos disso para a saúde.
  • Além disso, a conclusão que de cada 100 amostras, uma possui risco de causar doença aguda, é gravíssima, e não significa um nível de “segurança alimentar aceitável”, como afirma o relatório.
  • O Sindiveg estima que 20% dos agrotóxicos são contrabandeados. Como estes venenos “desconhecidos” estão sendo avaliados?

Nossa campanha já vem denunciando graves problemas de atuação da Anvisa no sentido de atender aos interesses empresariais, e virar as costas para a população. Este relatório apresenta uma clara tentativa de ocultar os problemas causados pelos agrotóxicos no Brasil. Afirmar a lavagem de alimentos como possível solução é um perigo para a sociedade, e demonstra um gravíssimo retrocesso no PARA, e na Anvisa em geral. A quase totalidade dos agrotóxicos possuem ação sistêmica, ou seja, operam “por dentro” e não na superfície dos vegetais.

Seguiremos atentos e denunciando que é o modelo do agronegócio que torna nossa agricultura insustentável e quimicamente dependente. Sementes transgênicas degeneram nossa biodiversidade e levam ao uso de mais agrotóxicos, que por sua vez intoxicam que planta e quem come. Seguimos firmes afirmando a agroecologia como única forma de produção de alimentos saudáveis para o Brasil e mundo.

Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Contato para imprensa:

Alan Tygel: (21) 9 80 85 83 40

Jakeline Pivato: (41) 9 96 76 52 39

 

MPF debate transgênicos

25, novembro, 2016 Sem comentários

mpf2016

Dados do Ministério da Saúde derrubam o mito da eficiência da agricultura industrial

19, outubro, 2016 Sem comentários

Dados do recém divulgado Relatório do Ministério da Saúde sobre Vigilância em Saúde a Populações Expostas a Agrotóxicos derrubam o mito da eficiência do modelo agroquímico. Entre 2007 e 2013, dobrou o uso de agrotóxicos enquanto a área cultivada cresceu 20%. É cada vez mais veneno jogado por metro quadrado de plantação. No mesmo período, dobraram os casos de intoxicação.

comercializacao-agrotoxicos

Categories: agrotóxicos Tags:

Glifosato é disparado o agrotóxico mais vendido no Brasil

19, outubro, 2016 Sem comentários

Glifosato, ingrediente do Roundup, é o veneno usado nas sementes transgênicas e de longe o agrotóxico mais comercializado no Brasil. É pra isso que servem as sementes produzidas por Monsanto, Syngenta, Bayer, Basf, Dow e Dupont.

Os dados são do Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, divulgado pelo Ministério da Saúdeagrotoxicos-mais-comercializados

Pesquisa mostra que a rejeição aos agrotóxicos ganhou a consciência da população

17, outubro, 2016 Sem comentários

Via CONSEA, 14/10/2016

Pesquisa nacional do Ibope, encomendada pelo Greenpeace, mostra que a rejeição aos agrotóxicos ganhou a consciência da população de todas as faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade, tanto nas capitais quanto no interior, em todas as regiões do país. A quantidade de agrotóxicos aplicados nas lavouras é “alta” ou “muito alta”, conforme 81% dos brasileiros – especialmente das brasileiras, que mais se ocupam com a alimentação familiar.

Foram realizadas 2.002 entrevistas com a população acima de 16 anos, em 142 municípios do país. A percepção é mais pronunciada no interior (82%) do que nas capitais (79%). E em municípios de até 50 mil habitantes (83%), em relação àqueles com mais de 500 mil habitantes (79%).

Essa percepção é também maior na faixa de renda com mais de cinco salários mínimos (83%), e menor nas pessoas com renda de até um salário (74%). Na região Sudeste (83%) do que na Nordeste (77%). E significativamente mais ampla na faixa etária de 35 a 44 aos (84%) que entre os jovens de 16 a 24 (73%).

“Consideramos que há uma certa homogeneização no modo de perceber o problema”, analisa o cientista político Rafael Cruz, da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace. “A maioria dos jovens ainda não se preocupa em abastecer o domicílio. E a população dos pequenos municípios  tem contato mais direto com os agrotóxicos. Mas o problema está visível para todos os públicos, e segue a tendência atual de cuidados com a saúde”.

Em 2015 o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou um relatório em favor da agroecologia como forma de mitigar e reduzir a incidência de câncer, com repercussão nos grandes telejornais. “Não tem sido fácil esconder o problema”, diz Cruz.

MERENDA COM VENENO

A pesquisa do Ibope mostrou que 82% dos brasileiros consideram “muito importante” que os prefeitos e vereadores apresentem propostas para oferecer merenda escolar sem agrotóxicos na rede pública de ensino. O estudo está sendo apresentado aos candidatos nas cidades onde haverá segundo turno, em particular no Rio de Janeiro.

São Paulo é a única capital brasileira que tem política de transição para merenda escolar orgânica, num período de 11 anos, por lei sancionada Em 2015. Porto Alegre acaba de aprovar lei que obriga o Executivo a comprar 10% de alimentos livres de agrotóxicos por ano, até chegar a 50%.

Também no caso da merenda a pesquisa do Ibope não identificou grandes contrastes entre regiões do Brasil, faixa etária, de renda e escolaridade, embora a qualificação de “muito importante” para a merenda escolar sem agrotóxico seja maior entre pessoas com renda superior a 5 salários mínimos (88%) do que para quem ganha até um salário (77%).

“Quando os municípios começam a discutir a alimentação nas escolas, é possível pensar numa transição para um outro sistema de produção agrícola no país”, analisa o cientista político do Greenpeace.

8 BILHÕES DE REFEIÇÕES

Uma estimativa a partir do Censo Escolar 2015 mostra que os 5.570 municípios brasileiros servem cerca de 8 bilhões de refeições por ano em suas redes municipais de ensino.

Segundo a lei 11.947/2009, no mínimo 30% dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação devem ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar.

Em 2014, a prefeitura de São Paulo investiu 8,99% dos seus recursos na aquisição de alimentos diretamente da agricultura familiar. O Rio de Janeiro, nem um centavo. As prefeituras de Belo Horizonte (29,72%) e Porto Alegre (35,96%) atingiram a meta dos 30%

Apenas 3% dos recursos foram usados em 2013-2014 para compra de alimentos orgânicos, segundo relatório do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

 Fonte: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

Categories: agrotóxicos, alimentação, governos Tags:

Comprueban efectos neurotóxicos del glifosato que alteran el sistema nervioso en mamíferos

14, outubro, 2016 Sem comentários

TELAM, 13/10/2016

Investigadores de la Universidad Nacional de Rosario (UNR) probaron “efectos neurotóxicos” del glifosato sobre el desarrollo y funcionamiento del sistema nervioso en períodos tempranos, a partir de la demora en la maduración de neuronas de mamíferos sometidas a ese herbicida, informó hoy la casa de estudios.

roundupInvestigadores de la Universidad Nacional de Rosario (UNR) probaron “efectos neurotóxicos” del glifosato sobre el desarrollo y funcionamiento del sistema nervioso en períodos tempranos, a partir de la demora en la maduración de neuronas de mamíferos sometidas a ese herbicida, informó hoy la casa de estudios.

El estudio fue realizado por un grupo de investigadores del Área Toxicología de la Facultad de Ciencias Bioquímicas y Farmacéuticas de la UNR, liderado por Susana Rosso.

Hace cinco años el equipo comenzó a evaluar los efectos tóxicos del glifosato sobre el desarrollo y función del sistema nervioso de mamíferos expuestos a ese producto durante el período de gestación.

“Nos interesaba saber si existían signos de neurotoxicidad manifestados por alteraciones en la capacidad aprendizaje y memoria, en la fuerza muscular, la actividad locomotora, en las respuestas reflejas de estos animales que se encuentran en períodos tempranos del desarrollo y que fueron expuestos al glifosato” durante la gestación, señaló la jefa del equipo.

Para eso, el grupo conducido por Rosso, investigadora adjunta de CONICET y profesora de la UNR, trató a ratas madres con glifosato cada 48 horas durante la preñez y después evaluó los efectos tóxicos en los neonatos.

Esos animales, indica el estudio, poseen un sistema nervioso parecido al del humano en cuanto a la expresión de genes.

“Observamos que manifiestan alteraciones en la capacidad de las respuesta reflejas, disminución en el desarrollo, en la actividad locomotora, en el aprendizaje y la memoria”, dijo Rosso en una nota de divulgación de la UNR.

“Todo esto indicaba –agregó- que había alteraciones en el sistema nervioso. Eran resultados moderados, no drásticos, pero mostraban alteraciones que comprometían al sistema nervioso”.

En la segunda etapa de la investigación, cuyos resultados se conocen ahora, los científicos se propusieron identificar qué aspecto a nivel celular está alterado y qué provoca estos cambios en la función del sistema nervioso “en los ensayos in vivo”.

Con ese fin emplearon un sistema in vitro para estudiar la neurona.

“Purificamos neuronas a partir de embriones de ratas, de un área del cerebro que es el hipocampo, y se ponen a desarrollar en placas de cultivos in vitro. Esto nos permitió llegar al mecanismo de toxicidad del glifosato”, explicó.

El estudio señala que una neurona normal -neurona control del hipocampo- va cambiando su morfología a partir de tres o cuatro horas “y por medio de microscopía se puede ver cómo va madurando”.

Así, sostiene la investigación, una neurona control luego de 24 horas de cultivo emite neuritas (ramificaciones) y una de ellas elonga rápidamente y forma lo que se denomina axón.

“Esto quiere decir que la neurona polarizó, que es un evento fundamental porque el axón permite comunicarse con otras neuronas, conducir el impulso nervioso, la señalización en todo el sistema nervioso, y emitir una respuesta”, detalló.

Si los axones no se forman y maduran la función del sistema nervioso estará alterada.

“Sorprendentemente, los primeros resultados mostraron que las neuronas tratadas con glifosato tardaban en polarizar ya que luego de 24 horas no desarrollaban su axón, a diferencia de sus controles que polarizaban y emitían un claro axón”, explicó la investigadora del Conicet.

Sin embargo, agregó, si se la deja en cultivo “48 o 72 horas, la neurona forma el axón y polariza, pero es ese axón es morfológicamente diferente al de una neurona control. Es un axón corto y muy poco ramificado”.

“Lo que nos llamó mucho la atención fue que cuando tratábamos una neurona de cuatro días la morfología de una neurona tratada con glifosato era como una célula de dos días: había un retraso en la maduración”.

Según informó la UNR, “los ensayos del equipo de investigación demostraron que los efectos no son reversibles”, por lo que “si uno le saca a la neurona el medio que contiene glifosato y se lo cambia con un medio fresco con todos los nutrientes, la neurona no recupera la morfología de la neurona control”.

Por el contrario, el estudio sostiene que “queda retrasada en su desarrollo, en un estadio muy simple e inmaduro” mientras que “in vitro, luego de ocho días estas neuronas mueren”.

::

I Simpósio em Biotecnologia Ambiental

4, outubro, 2016 Sem comentários

Período de realização: 04 a 06 de outubro de 2016

Local: Auditório Tércio Pacitti, Av. Pasteur, 458, Urca, UNIRIO-IBIO

Temas abordados:

  1. Panorama atual da biotecnologia
  2. Biorremediação e suas aplicações
  3. A biotecnologia da defesa de plantas e seu uso na agricultura
  4. Impactos dos agrotóxicos e pesticidas na agricultura nacional
  5. Biotecnologia na conservação de solos
  6. Biotecnologia na preservação da biodiversidade
  7. Os transgênicos no Brasil: prós e contras da técnica

06/10/2016

18:00h – Palestra 1 – Impactos dos agrotóxicos e pesticidas na agricultura nacional (Dra. Claudia Aiub – UNIRIO)

19:00h – Intervalo

19:20h –  Mesa Redonda – Os transgênicos no Brasil: os prós e contras da técnica (Dr. César Siqueira – UNIRIO e Ms. Gabriel Fernandes – AS-PTA/RJ)

20:20h – Encerramento

Agrotóxicos, depressão e dívidas criam ‘bomba-relógio’ de suicídios no RS

4, outubro, 2016 Sem comentários
Homens, jovens, mulheres e crianças se intoxicam com agrotóxicos e ‘folha verde’, agricultores se endividam presos no ciclo de dependência imposto pelas fumageiras, acabam perdendo as terras para as empresas e muitos se entregam ao suicídio
04/10/2016, bbc.com
Paula Sperb De Porto Alegre para a BBC Brasil
Simone Rovadoski

Simone Rovadoski ficou um ano sem plantar depois da morte do marido| copyright Diogo Zanatta

A família de agricultores acordou cedo e tomou chimarrão naquela manhã quente de 21 de dezembro de 2013. A mãe fez bolinhos para o lanche e iniciou o preparo da lentilha para o almoço.

Mas, quando Simone Rovadoski, 39 anos, saiu da casa para ajudar o marido José Dell Osbel, 44, no cultivo dos 48 mil pés de tabaco da família, encontrou-o morto.

“Não pude evitar que as crianças vissem. Foi um horror”, relembra Simone sobre o suicídio do marido, em Gramado Xavier, a 156 km de Porto Alegre. “Ajuda a salvar meu pai, ajuda!”, pedia o filho do casal, na época com 13 anos, para curiosos que se aproximavam.

Osbel passou a integrar as estatísticas que fazem do Rio Grande do Sul o Estado com mais casos de suicídios no Brasil: 10 a cada 100 mil habitantes.

A taxa é praticamente o dobro da brasileira (5,2 por 100 mil em 2012, segundo dados do Ministério da Saúde) e próxima da taxa mundial (11,4 por 100 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde).

Agrotóxicos e depressão

Gramado Xavier, com pouco mais de 4 mil habitantes, fica na região central gaúcha, conhecida por ser um polo fumageiro – da indústria do fumo.

A conexão entre suicídio e plantadores de fumo é apontada em diversos estudos científicos. Um relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha apontava, em 1996, que 80% dos suicídios da cidade de Venâncio Aires, a maior produtora de tabaco do Estado, eram cometidos por agricultores. O mesmo estudo mostrava aumento nos suicídios quando o uso de agrotóxicos era intensificado.

Segundo uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o uso de agrotóxicos, como os organofosforados, aumenta as chances de depressão dos agricultores.

Em 2014, 20% de cem fumicultores entrevistados sofriam de depressão, segundo a UFGRS. O quadro depressivo por exposição aos venenos, somado a fatores sociais e culturais, pode evoluir para o suicídio.

A relação é contestada pelo Sindicato da Indústria do Tabaco local (Sinditabaco), que diz que “atrelar casos de suicídio ao uso de agrotóxicos na cultura do tabaco é inconsistente”.

Simone Rovadoski

Simone Rovadoski encontrou o corpo do marido na plantação de tabaco da família| copyright Diogo Zanatta

 

O Rio Grande do Sul tem 73.430 famílias (mais de 577 mil pessoas) que colhem 255 mil toneladas de tabaco anualmente, de acordo com a Afubra (Associação dos Fumicultores do Brasil).

A Afubra alega que as empresas fumageiras orientam os agricultores quanto à aplicação correta dos defensivos e o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs). Segundo o Sinditabaco, “alguns produtores ainda resistem à utilização correta do EPI”.

Mas “o agrotóxico, para fazer efeito, tem que ser aplicado quando tem sol, naqueles calorões infernais de novembro. O suor embaça os óculos (do equipamento), a máscara sufoca, falta ar. A luva prejudica a coordenação motora fina”, conta Mateus Rossato, 35 anos, que trabalhou na lavoura da família dos 12 aos 20 anos, em Nova Palma, a 224 km da capital gaúcha.

Rossato avalia a falta de ergonomia dos equipamentos de segurança porque hoje entende sobre o corpo humano: é professor de Educação Física na Universidade Federal do Amazonas. Para ele, os equipamentos não são adequados às necessidades reais dos agricultores. E, mesmo quando são usados, não impedem que o veneno, que é carregado nas costas, escorra pelo corpo no momento da aplicação.

Doença da folha verde

Os danos à saúde relatados pelos próprios agricultores, porém, não são somente psíquicos.

Do total de entrevistados no estudo da UFRGS, 67% apresentaram os sintomas da doença da folha verde do tabaco (DFVT), causada pela intoxicação por nicotina através do contato da planta úmida com a pele. Os principais sintomas são vômito, tontura, dor de cabeça e fraqueza, de acordo com o Ministério da Saúde.

Antes de se suicidar, Osbel chegou a ser internado para tratar a depressão. Mas antes foi diagnosticado por diferentes médicos com sinais da doença da folha verde.

Hemograma de José Dell Osbel
copyright Arquivo pessoal

O exame de José Dell Osbel demonstrava o impacto da doença da folha verde do tabaco

“Ele ia para a roça e logo tinha que procurar atendimento porque desmaiava”, relembra Simone.

Ela conta que, depressivo e intoxicado, Osbel também abusava do álcool.

“Os agricultores acabam tratando seus problemas com o álcool. É mais um fator de risco”, afirma o médico psiquiatra Rafael Moreno de Araújo, coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS).

O médico ressalta que o histórico familiar, influenciado tanto pela herança genética como pela cultura local, também colabora para o suicídio. Além de tudo, Osbel tinha um avô que havia se suicidado.

“É uma bomba-relógio”, diz o psiquiatra ao enumerar os fatores de risco aos quais os fumicultores estão expostos: genética, baixa escolaridade, histórico familiar, estilo de vida estressante e intoxicação.

Dívidas com as fumageiras

A questão financeira é o principal gatilho para o estresse entre fumicultores. Eles precisam organizar o dinheiro que recebem apenas uma vez por ano para sustentar a família pelos 12 meses seguintes.

Além disso, a maioria deles tem dívidas com as próprias empresas que compram sua produção. Não é raro que os processos movidos pelas companhias terminem com a tomada das terras dos agricultores.

“A perda das terras é a perda da vida deles”, analisa o advogado Mateus Ferrari, que atende diversos casos de agricultores endividados.

A dívida inicia quando o agricultor se compromete a entregar sua produção a uma empresa específica. A empresa fornece sementes, venenos e equipamentos de segurança e muitas vezes exige a construção de galpões. Mas tudo isso é descontado do valor a ser pago pela produção.

Quando esta é entregue, a empresa classifica as folhas através de uma amostra: quanto mais qualidade, mais será pago. Muitas vezes os agricultores recebem menos do que o planejado e ainda precisam pagar suas dívidas dos insumos.

“Eles não têm como argumentar, a maioria tem escolaridade baixa. É o tempo todo sob ameaça: ‘vamos cancelar o pedido, colocar teu nome no SPC e acionar a Justiça'”, relata Ferrari.

Sob ameaça de perderem suas terras e querendo receber os insumos da próxima safra, os agricultores acabam assinando sua confissão de dívida, não raro com juros sobre juros, sem estarem completamente cientes das consequências.

“A gente tenta salvar as terras, mas não há como combater os contratos. Então, tentamos um acordo para que os agricultores consigam pagar”, explica Ferrari.

Depois que o marido se suicidou, Simone ficou um ano sem plantar porque, endividada, não conseguia adquirir insumos. Só retomou a lavoura porque fez novos créditos no nome “limpo” da filha, de 19 anos.

Falta de apoio

Alguns dos processos contra os agricultores são iniciados pela própria Afubra, em teoria representante deles. A entidade alega que só entra na Justiça contra os fumicultores “quando o individual se sobrepõe ao coletivo”, mas não especificou os casos.

A entidade tampouco respondeu se ajuda os agricultores a entenderem seus contratos ou se atua de alguma maneira na prevenção de suicídios.

O Sinditabaco, questionado se auxilia os agricultores na prevenção do endividamento ou contabiliza o número de casos na Justiça, diz apenas que “trata dos assuntos comuns às empresas associadas e, portanto, não dispõe desse tipo de informação”.

O pai de Júlio Selbach, 47 anos, do município de General Câmara, perdeu 22 hectares de suas terras na Justiça. “A causa está perdida, não conto mais com isso. Continuo lutando, mas vai ser muito difícil reverter”, comenta Selbach.

Seu pai era seu fiador de uma dívida de R$ 150 mil que a família considera “inexplicável”. “No final das contas tudo é legal. O orientador técnico da empresa traz um monte de folhas e manda tu assinar. Eles dizem ‘não adianta nem tu ler que tu não vai entender. Se não quiser assinar o negócio termina aqui'”, relata.

Por causa da dívida e da perda das terras do pai, Selbach largou a plantação de tabaco e agora produz leite. Ele conta que histórias como essa muitas vezes acabam em suicídio porque o “chefe” da família sente culpa por envolver a família em uma situação de conflito.

 

O Rio Grande do Sul tem 73.430 famílias (mais de 577 mil pessoas) que colhem 255 mil toneladas de tabaco anualmente

O psiquiatra coordenador da APRS corrobora a tese. “Nessa região o suicídio é um problema que atinge os homens, que têm essa responsabilidade de ser o provedor da família e acabam ficando com a culpa pela (má) safra, pela dívida”, diz Araújo. Segundo ele, poucos desses homens procuram ajuda psicológica.

Há também, segundo ele, negligência no atendimento do sistema de saúde. “Às vezes o paciente chega (após ter tentado) suicídio, passa por uma lavagem no estômago e é liberado, sem avaliação psiquiátrica”, relata.

Intoxicação infantil

O problema se torna ainda mais complexo porque a entrada de muitos agricultores na lavoura ocorre muito cedo. O marido de Simone, que se suicidou em 2013, trabalhou na lavoura de fumo por 34 anos, desde criança. Rossato, o professor de Educação Física, também trabalhou na roça quando era pequeno.

Por causa da presença constante das crianças no campo, casos de intoxicação e alergias são comuns.

O filho mais velho de Luciana Pereira da Rosa, 44 anos, de General Câmara, apresentou sinais de doença da folha verde quando tinha apenas 12 anos. “Ele ia para a roça colher fumo e vomitava direto”, relembra a mãe.

O filho agora tem 28 anos e recentemente abandonou a atividade, junto com os pais. Todos se mudaram para Taquari, cidade próxima, por causa da alergia da irmã mais nova, hoje com sete anos. “A pele ficava vermelha, saía sangue e levantava uma casca. Era horrível”, lembra Luciana.

Os médicos não davam um diagnóstico preciso sobre a causa, mas Luciana notava que as crises ocorriam logo depois que o glifosato era aplicado nos pés de fumo da família ou de vizinhos.

Com a mudança de cidade, a filha não ficou mais doente.

O Ministério Público do Trabalho do RS não dispõe de estatísticas sobre trabalho infantil nas lavouras. De acordo com a procuradora Erinéia Thomazini, de Santa Cruz do Sul, na região fumageira, “em muitos casos a denúncia de trabalho infantil sequer chega”.

Uma pesquisa do IBGE aponta que 39.659 crianças de 10 a 13 anos trabalhavam no Rio Grande do Sul em 2010.

O Sinditabaco diz combater a prática, mas agrega que “temos ainda um caminho a percorrer para a completa erradicação do problema”. A entidade aponta a necessidade de mais escolas rurais para auxiliar na prevenção.

Quem deixa a plantação de fumo diz que a sensação é de alívio. Mas notícias sobre suicídios de vizinhos e conhecidos sempre chegam.

“Lá na minha região tem uma expressão: ‘só se vende corda com receita médica’. Isso porque é alta a incidência de suicídio dos agricultores. Você junta a depressão com a dívida, a frustração de perder uma safra. É o contexto perfeito para se suicidar”, comenta Rossato sobre os conterrâneos.

Além disso, o silêncio dos agricultores sobre o tema agrava o quadro. ” O suicídio parece que é tratado como um tabu, quase proibido ou até vergonhoso de falar. Claro que dói. Mas preciso falar porque quero que menos gente tire a própria vida, como meu marido fez”, alerta Simone.

::

Audiência expõe efeitos dos agrotóxicos

24, setembro, 2016 Sem comentários

jornalahora.com.br

A Hora, 23/09/2016

ALERTA NACIONAL: fórum em Encantado mostra os perigos da aplicação de agrotóxicos.

Brasil é o recordista mundial no consumo de defensivos

Cerca de 250 pessoas participaram de audiência pública promovida ontem à tarde pelo Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos. O evento, no auditório Itália da prefeitura, foi coordenado pelos Ministérios Públicos Federal, Estadual e do Trabalho ouviu relatos de agricultores e pesquisadores sobre os efeitos do uso de pesticidas.

A abertura ficou a cargo da doutora em Ciências Farmacêuticas pela USP e professora da UPF, Mara Regina Calliari Martin. Na palestra, a pesquisadora mostrou pessimismo ao mostrar que os índices de consumo e contaminação por agrotóxicos estão mais altos na comparação com anos anteriores. Mara criticou a bancada ruralista e as multinacionais que apoiam a mudança da palavra “agrotóxico” para “defensivos agrícolas” nas embalagens. “Na verdade, são venenos”.

Segundo ela, os agrotóxicos são xenobióticos, compostos químicos estranhos a um organismo ou sistema biológico. Lembra que desde 2008 o Brasil é o primeiro colocado no ranking do consumo desses produtos. As culturas com mais utilização de veneno são soja, milho, cana-de-açúcar e algodão.

Professora-adjunta da Uergs na área de ciências da vida e meio ambiente, Elaine Biondo apresentou dados de pesquisa realizada no Vale do Taquari. Conforme o estudo, 85% dos produtores confirmaram a utilização de químicos em suas culturas.

Elaine sugeriu a realização de novas pesquisa sobre o tema e destacou a produção de documentários sobre os malefícios da pulverização aérea das lavouras. Para ela, é preciso difundir o cultivo de alimentos sem veneno, inclusive no currículo dos ensinos Fundamental, Médio e Superior.

Em seguida, representantes de órgãos públicos, associações civis, estabelecimentos de saúde, conselhos, universidades e movimentos sociais organizados fizeram uso da palavra. Nos depoimentos, abordaram a proibição de pulverização aérea e o cumprimento do Código de Defesa do Consumidor nos rótulos das embalagens, com a indicação do uso de agrotóxicos na produção dos alimentos.

Também defenderam a produção do milho crioulo e a preservação do patrimônio genético das culturas e alertaram sobre a relação entre o uso de pesticidas e a diminuição na população mundial de abelhas.

Conforme Mara Regina Martin, Brasil lidera uso de agrotóxicos no mundo Crédito: Divulgação

Produção orgânica

Professor aposentado e produtor orgânico de Lajeado, Pedro Squarcieri defendeu mais estímulos para a modalidade. Ele também sugeriu a criação de mecanismos de punição para produtores que não respeitarem os limites para o uso do agrotóxico.

“A educação tem que se comprometer com o ambiente, a natureza”, afirmou. Squarcieri também defendeu uma maior divulgação das produções orgânicas e seus efeitos em benefício da saúde dos consumidores.

Coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Maurício Queiroz questionou sobre a garantia de que os agricultores e povos que produzem alimentos com sementes crioulas não sejam contaminados pelo milho transgênico.

“O milho é de polinização aberta e se houver lavouras de transgênicos com floração no mesmo período, mesmo que a quilômetros, haverá contaminação”, alega.

Para o agricultor Ângelo Cristian Weizenmann, de Arroio do Meio, a grande maioria dos pequenos e médios produtores que vê no cultivo orgânico uma alternativa de renda precisa de investimentos para continuar no campo e não recebe incentivos.

“[…]pela população, chegávamos a 5,2 litros por habitante ao ano. Consumíamos mais agrotóxicos do que vinho. Crédito: Divulgação

“A produtividade não aumentou em decorrência de transgênicos e agrotóxicos”

Vice-reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul, Antônio Inácio Andrioli é doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück, Alemanha.

Membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), é autor de seis livros. O mais recente “Soja Orgânica Versus Soja Transgênica: um estudo sobre tecnologia e agricultura familiar no noroeste do RS” foi publicado no dia 15 de setembro, e está disponível para download gratuito neste link.

A Hora – Como você avalia a escalada dos agrotóxicos nos últimos anos?

Antônio Inácio Andrioli – Os índices têm crescido desde a época em que o Brasil se tornou campeão mundial de consumo, em meados dos anos 2000. Naquele período, se dividíssemos a quantidade de agrotóxicos legalmente comprada, conforme dados oficiais da Associação Nacional da Indústria de Defensivos Agrícolas, pela população, chegávamos a 5,2 litros por habitante ao ano. Consumíamos mais agrotóxicos do que vinho. Agora chegamos a 7,1 litros por habitante, isso se esse consumo for distribuído de forma uniforme.

Quais regiões são mais afetadas pelo uso de agrotóxicos?

Andrioli – O campeão, no Brasil é o município de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. São 152 litros por habitante ao ano, e naquela região temos o agravante das pulverizações aéreas. O professor Wanderlei Pignati, da Universidade Federal do Mato Grosso, tem divulgado várias pesquisas sobre isso, alertando para os efeitos à saúde da população. O documentário Nuvens de Veneno, disponível no Youtube aborda essa questão. No RS, a região noroeste lidera o uso de agrotóxicos. Recentemente até a Rede Globo tem divulgado matéria associando o alto índice de câncer naquela região ao consumo desses produtos. O Hospital de Caridade de Ijuí tem muitos dados nessa área. Está cientificamente comprovada a presença de resíduos de glifosato na urina e no leite materno de várias regiões do país, além de rios e fontes de água contaminadas.

A contaminação da água preocupa?

Andrioli – A Unijuí, o Instituto Federal Farroupilha e a Emater têm vários estudos sobre essa contaminação. Na fórmula do Roundup, além do glifosato, que é o princípio ativo, tem sal de isopropilamina e taloamina. A taloamina é responsável pelo efeito surfactante, ou seja, diminui a tensão superficial de um tecido vivo para permitir que o glifosato penetre na planta. A cada nova fórmula do Roundup lançada no mercado, aumenta o teor de taloamina. Mas a substância é proibida em vários países da Europa, por provocar câncer, em especial de pele, justamente por romper o tecido celular. Imagina se banhar em um rio que contém taloamina ou tomar diariamente banho de chuveiro com essa água contaminada. No Brasil, 92% da área cultivada com soja, milho e algodão é com transgênicos resistentes ao Roundup.

Alguns setores afirmam que o uso de veneno é benéfico por aumentar a produtividade, em especial no agronegócio. Falam, inclusive, na possibilidade de reduzir os índices da fome. Isso se comprova?

Andrioli – A fome só aumentou nesse período, desde que foram liberados transgênicos e que elevou o uso de agrotóxicos. Embora países como o Brasil tenham saído do mapa da fome, principalmente em função de políticas sociais e de distribuição de renda, no mundo passamos de 800 milhões para um bilhão e 200 milhões de pessoas passando fome. A produtividade não aumentou em decorrência de transgênicos e agrotóxicos. Além disso, aumentou a concentração de terras e o custo de produção. Em resumo, menos gente na roça produzindo comida, tendo que ser alimentada por menos produtores.

Existem alternativas viáveis aos transgênicos?

Andrioli – No caso da soja, novas variedades conseguem aumentos de produtividade sem transgenia. Para uma variedade nova, mais produtiva, ser transformada em transgênica o processo dura uns dez anos. Tenho acompanhado isso na CTNBio e a conclusão é que as variedades não transgênicas chegam antes ao mercado e as transgênicas sempre têm uma defasagem na produtividade. Detalhe: toda variedade pode ser transformada em transgênica, ou seja, ser resistente ao Roundup. Ser resistente ao Roundup não significa ser mais produtiva.

Recentemente foi divulgada a compra da produtora de agrotóxicos Monsanto pela farmacêutica Bayer. Qual sua opinião sobre esse negócio e o que ele representa?

Andrioli – Simboliza o monopólio da indústria química sobre a produção de alimentos. Se, em outros tempos, o grande progresso das ciências da saúde contou com melhorias no saneamento básico, atualmente depende da qualidade dos alimentos. Para a indústria farmacêutica, interessa vender mais produtos químicos, mantendo o consumidor vivo por um longo tempo. Essa é a tese básica, seja da Bayer, da Basf ou da Syngenta. A primeira empresa a investir em milho transgênico foi a Syngenta, da Suíça, a maior indústria farmacêutica do mundo. A pergunta básica: por que uma empresa da indústria farmacêutica investe em milho?

– É uma pergunta curiosa.

Andrioli – Minha resposta: o milho Bt, esse disponível no mercado, com gene de bactéria que produz toxina para matar lagarta, provoca imunodeficiência, que é a base de todas as doenças. A Bayer é a maior indústria química da Alemanha, país que mais produz químicos. Curiosamente, a Alemanha proibiu os transgênicos. Os países europeus seguem produzindo longe de casa o lixo que proíbem perto de si mas, ao final, os resíduos dos venenos em nossos produtos vão parar lá também.

Ao comprar a Monsanto, a Bayer segue a lógica da Syngenta, aumentando sua fatia no mercado e dando uma nova marca aos produtos da Monsanto. A expectativa é controlar o que se produz de alimentos na Ásia, África e América Latina, mantendo a população mundial dependente, como consumidora de produtos químicos.

 

::