Arquivo

Textos com Etiquetas ‘biotecnologia’

Livro reúne mais de 750 estudos que apontam riscos e incertezas dos transgênicos

21, março, 2017 Sem comentários

Rede Brasil Atual, 21/03/2017

por Cida de Oliveira

Desprezadas por autoridades de saúde e meio ambiente de vários países, essas pesquisas científicas desmascaram o mais poderoso e perverso ramo do agronegócio e a mitologia que sustenta sua propaganda

São Paulo – Cada vez mais comum em todo o mundo, a doença celíaca é causada por inflamações intestinais que levam a deficiências nutricionais, alterações no sistema reprodutivo, inclusive infertilidade, e aumentam as chances de desenvolvimento de doenças na tireóide, insuficiência renal e câncer. Estudo publicado em 2013 pelo pesquisador independente Anthony Samsel e Stephanie Seneff, do Laboratório de Inteligência Artificial do Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT), ambos dos Estados Unidos, sugere que o glifosato, ingrediente ativo do herbicida Roundup, da Monsanto, é a causa mais importante nessa epidemia. Os pesquisadores perceberam que as inflamações que levam à doença celíaca são muito semelhantes àquelas encontradas por outros estudos, que constataram alterações em bactérias intestinais de peixes expostos a esse herbicida.

O glifosato, agrotóxico mais usado em todo o mundo, é famoso também por inibir a ação de algumas enzimas digestivas, levando à deficiência em ferro, cobalto, molibdênio, cobre e outros metais raros, associada a distúrbios como infertilidade, abortos e malformações congênitas, comuns à doença celíaca.

Segundo pesquisadores, a presença de resíduos do herbicida no trigo e em outras culturas aumentaram provavelmente devido ao uso de produtos, entre eles o próprio glifosato, para uniformizar a maturação das plantas e facilitar a colheita. Nesse processo tecnicamente chamado de dessecação, as plantas absorvem muito mais venenos. Esse amadurecimento artificial é comum em muitas culturas, e pode ter ligação, por exemplo, com o aumento de insuficiência renal entre os trabalhadores da cana de açúcar da América Central.

O trabalho dos norte-americanos Samsel e Seneff é um dos mais de 750 estudos científicos internacionais reunidos no livro Lavouras Transgênicas – Riscos e Incertezas. Fruto da pesquisa de Gilles Ferment, Leonardo Melgarejo, Gabriel Bianconi Fernandes e José Maria Ferraz, está disponível para download gratuito desde 2015. A obra foi patrocinada pelo Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Agrário do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

Embora os links sejam direcionados para bases de referência estrangeiras, com artigos escritos em inglês, as apresentações dos tópicos sobre impactos ambientais e à saúde, especialmente, são escritos em português. Com texto acessível e claro, é uma alternativa para pessoas que queiram exercer seu direito à informação. Especialmente em relação a um outro direito humano: o da alimentação adequada e segura.

Ao longo de seis meses, com ajuda de colaboradores em universidades, centros de pesquisa e organizações, esses especialistas em agroecologia – tema que atrai cada vez mais o interesse de pesquisas científicas – e em agricultura convencional, transgênicos, agrotóxicos e toda sua relação com saúde e meio ambiente catalogaram toda a pesquisa internacional. E constataram o tamanho do descaso das autoridades reguladoras do setor.

Sistematizaram estudos sobre os riscos à saúde e ao meio ambiente, chegando ao ponto de questionar impactos na interação entre as plantas transgênicas e convencionais, com outros organismos, a sobrevivência de transgenes à digestão e inúmeros outros processos químicos e biológicos. Não é à toa que esses estudos sejam desprezados por autoridades reguladoras: em geral, seus autores, com o rigor científico, desmentem o discurso hegemônico de que os transgênicos não apresentam perigos.

No final de fevereiro, foi lançada a edição em inglês. A exemplo da versão original, Transgenic Crops foi bem recebida por entidades nacionais e estrangeiras porque traduz os argumentos para o bom debate para o idioma dominante nos meios acadêmicos e científicos, além de poder subsidiar organizações em vários países. E a exemplo da primeira edição, esta também foi execrada pelo agronegócio e setores por eles controlados.

livros.jpg

Com edições em português e em inglês, Lavouras Transgênicas está disponível para download gratuito

Soja “Maradona”

A chegada de Transgenic Crops marca os 20 anos das primeiras sementes de soja contrabandeadas da Argentina, a famosa soja “Maradona”. Tidas como mais baratas e mais produtivas que as convencionais comercializadas no Brasil, seduziram agricultores do Rio Grande do Sul.

De lá para cá, o país foi se tornando terreno cada vez mais fértil para a lucratividade das transnacionais. E com as bênçãos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNbio), tem aprovado todos os pedidos para pesquisa e comercialização de novas plantas geneticamente modificadas, além de estudos com animais e vacinas, com uma facilidade jamais vista em outros países.

O resultado é que o Brasil  tem aumentado sua área cultivada com transgênicos. Em 2015, eram 44,2 milhões de hectares, 5% maior que a do ano anterior, conforme o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA). De toda soja produzida no país, 94% é transgênica. No caso do milho, esse percentual é de 84%, e 66% nas culturas de algodão.

“A liberação dos transgênicos ameaça o direitos do agricultores de seguirem plantando as sementes de sua preferência, ameaçando também a base genética da qual depende o próprio futuro da nossa alimentação. Uma plantação contaminada não pode produzir sementes para plantio no ano seguinte pois assim espalhará a contaminação. O agricultor deve recorrer a colegas, feiras de sementes ou pesquisadores que tenham aquela semente para poder voltar a plantá-la. No caso das plantações certificadas como orgânicas o agricultor ainda enfrentará um prejuízo econômico por não poder vender sua plantação como orgânica”, alerta o agrônomo Gabriel Fernandes, da equipe executiva da AS PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, do Rio de Janeiro.

Em duas décadas, os transgênicos “inovaram” ao introduzir plantas resistentes a herbicidas, que exigem mais e mais agrotóxicos, e plantas que produzem seu próprio inseticida. É a soja, exportada principalmente para a produção de ração animal; o milho, que vai ser usado em alimentação infantil e até na produção de cerveja; o algodão, usado para a fabricação e óleos e outros subprodutos. Eventuais ganhos de produtividade resultam mais da planta em si do que da modificação genética que sofreu.

De lá para cá, o que se assiste é a crescente pressão do agronegócio, que conquista espaço no parlamento, no governo e nas agências que deveriam regular o setor, e não serem controladas por ele. O interesse da indústria e de ruralistas é defendido, entre outras coisas, com o falso consenso da falta de estudos que comprovem os seus prejuízos à saúde e ao meio ambiente – daí a importância de Lavouras Transgênicas.

“Há muitos cientistas, inclusive dentro da CTNBio, que fazem vista grossa para publicações científicas que sustentam a dúvida e, ao mesmo tempo, enaltecem os argumentos de propagandas veiculadas em campanhas de marketing, que reafirmam bobagens com a ilusão de que as lavouras transgênicas teriam provocado redução no uso de agrotóxicos, quando este quadruplicou. O avanço dos transgênicos ampliou e amplia mais, ano a ano, o uso no Brasil de venenos cada vez mais tóxicos, com impactos sobre a saúde e o ambiente”, afirma o coordenador do Grupo de Trabalho de Agrotóxicos e Transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Leonardo Melgarejo, e ex-membro da CTNBio.

 Parcerias

os4.jpg
Ferraz, Gilles, Melgarejo e Gabriel (sentido horário): seis meses de pesquisa em bancos de dados estrangeiros

As instituições que produzem pesquisa para embasar os pareceres favoráveis à indústria das sementes e dos venenos são universidades, empresas de pesquisa públicas. São as mesmas que produzem o conhecimento que contesta esses dados. Como há diminuição do financiamento público para pesquisas, as empresas de organismos geneticamente modificados e agrotóxicos seduzem pesquisadores com verbas. E tem crescido o número de empresas privadas constituídas por pesquisadores egressos de universidades e empresas de pesquisa pública, com a finalidade específica de elaborar experimentos que dão pareceres favoráveis às empresas.

“Pesquisas feitas com verbas de empresas em parceria com órgãos públicos geralmente têm contratos com cláusulas que proíbem a divulgação dos dados obtidos sem a autorização da contratante. Ou seja, só serão divulgados dados se os resultados forem favoráveis. Se forem desfavoráveis,  não serão publicados. Assim, temos empresas públicas e universidades públicas trabalhando para o interesse das empresas privadas. Uma parceria interessante para as multinacionais, que apenas pagam os salários dos pesquisadores e professores”, afirma o pesquisador aposentado da Embrapa José Maria Ferraz, pesquisador convidado do Laboratório de Engenharia Ecológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp0 e ex-membro da CTNBio.

Para os autores de Lavouras Transgênicas, o avanço dessas culturas e a perspectiva do uso de agrotóxicos cada vez mais potentes para romper a resistência de algumas plantas – uma reação da natureza – apontam para tempos ainda mais sombrios. No entanto, essa perspectiva sustentada por uma conjuntura favorável apenas para os que lucram com o envenenamento do meio ambiente e com a doença das pessoas, não é inexorável.

A transição de volta à agricultura livre de transgênicos é perfeitamente possível. Basta consciência e mobilização social para exigir o abandono dessas sementes, e apoio técnico e financeiro para o agricultor passar a adotar sistemas de rotação de culturas, consórcios, plantios intercalados ou cultivos de cobertura e adubos verdes. Com isso é possível recuperar a vida do solo e dar os primeiros passos rumos a uma agricultura sustentável para todos.

I Simpósio em Biotecnologia Ambiental

4, outubro, 2016 Sem comentários

Período de realização: 04 a 06 de outubro de 2016

Local: Auditório Tércio Pacitti, Av. Pasteur, 458, Urca, UNIRIO-IBIO

Temas abordados:

  1. Panorama atual da biotecnologia
  2. Biorremediação e suas aplicações
  3. A biotecnologia da defesa de plantas e seu uso na agricultura
  4. Impactos dos agrotóxicos e pesticidas na agricultura nacional
  5. Biotecnologia na conservação de solos
  6. Biotecnologia na preservação da biodiversidade
  7. Os transgênicos no Brasil: prós e contras da técnica

06/10/2016

18:00h – Palestra 1 – Impactos dos agrotóxicos e pesticidas na agricultura nacional (Dra. Claudia Aiub – UNIRIO)

19:00h – Intervalo

19:20h –  Mesa Redonda – Os transgênicos no Brasil: os prós e contras da técnica (Dr. César Siqueira – UNIRIO e Ms. Gabriel Fernandes – AS-PTA/RJ)

20:20h – Encerramento

Bola fora de prêmios Nobel

20, julho, 2016 Sem comentários

 

“Os experts são incompetentes para tudo aquilo que excede a sua especialidade”

Edgar Morin, 2007, p.150

No final de junho o jornal The Whashington Post publicou matéria divulgando que mais de cem ganhadores do prêmio Nobel haviam assinado manifesto dirigido ao Greenpeace no qual pedem que a organização ambientalista deixe de fazer campanha contra os transgênicos. Na carta aberta, que também é dirigida às Nações Unidas e aos governos ao redor do mundo, os laureados chegam a insinuar que as campanhas do Greenpeace seriam equivalentes a crimes contra a humanidade.

A defesa aos transgênicos é feita a partir do caso do arroz dourado, teoricamente desenvolvido para produzir mais beta-caroteno, precursor da vitamina A, elemento indispensável para se evitar a cegueira. Na argumentação apresentada fica a ideia de que essa solução mágica nunca chegou aos pratos dos que dela poderiam se beneficiar pela difamação da tecnologia promovida pela ONG. Ora, se após 20 anos até hoje não se provou se essa semente funciona e até agora também ela não foi aprovada em nenhum país, não se pode acusar o Greenpeace por mais esse fracasso da indústria dos transgênicos e de sua produtiva fábrica de promessas.

Segundo o professor da UnB Nagib Nassar, FAO e OMS recomendam para crianças de 1-3 anos a ingestão diária de 400 ug da vitamina A, e, para adultos, 500 a 850 ug. O arroz dourado tem 1,6 ug do B-caroteno por grama de peso fresco. A batata doce, o alimento mais barato e abundante para populações pobres, e disponível em todo o mundo, possui 11,4 ug/g. Como o índice de conversão de B-carotena em vitamina A é de 6 por 1, seria necessária comer 1,5 kg de arroz dourado por dia para ter o nível médio de vitamina A recomendado.

Aliás, ainda que o arroz dourado fosse tudo aquilo que se prometeu, ele não poderia servir para uma defesa ampla de qualquer tipo de transgênico como fizeram nessa carta. Afinal de contas, a avaliação dos transgênicos deve se dar caso a caso. E se essas avaliações fossem isentas ou de fato baseadas em dados científicos dificilmente teríamos a ampla lista de soja, milho e algodão liberados por aqui, já que há pelo menos 700 estudos sobre riscos e impactos dos transgênicos que foram descartados pelos órgãos reguladores da biotecnologia e suas aplicações.

O manifesto ilustra bem como podem falhar os especialistas quando usam de sua autoridade científica para emitir opinião sobre áreas que não são as suas e não baseadas em dados de pesquisa.

p.s. Notem que entre a lista dos que assinam o manifesto tem até um Nobel falecido ano passado:
https://www.independentsciencenews.org/news/107-nobel-laureate-attack-on-greenpeace-traced-back-to-biotech-pr-operators/

 

 

Suzano investe em árvores transgênicas

14, julho, 2010 Sem comentários

Suzano Papel e Celulose adquire inglesa Futuragene e deve focar ações no desenvolvimento de árvores transgênicas, como o eucalipto. A compra está avaliada em cerca de R$ 160 mlhões. Apenas em 2010 o BNDES destinou à empresa mais de R$ 280 milhões.

Abaixo, reportagem de O Estado de São Paulo, 14/07/2010.

Leia mais…