Arquivo

Arquivo de outubro, 2011

Bayer tenta “fisgar” grandes produtores

29, outubro, 2011 Sem comentários

VALOR ECONÔMICO, 28/10/2011

Por Gerson Freitas Jr. | De Santiago (Chile), O jornalista viajou a convite da Bayer CropScience

Disposta a retomar a liderança no mercado doméstico de agroquímicos, perdida na última década para a Syngenta, a Bayer CropScience – divisão agrícola da multinacional alemã – quer melhorar sua relação com os grandes produtores e empresas agrícolas, um grupo que em 2010 movimentou quase 30% de um mercado estimado em US$ 8 bilhões e que deve aumentar sua fatia no bolo nos próximos anos.

Para isso, a empresa coloca suas fichas em um novo programa, baseado na oferta de serviços. A ideia é que os clientes tenham acesso a consultorias nas áreas de gestão, tecnologia, logística, sustentabilidade, capacitação de funcionários e até estratégias de sucessão. Além disso, a multinacional alemã pretende organizar viagens de negócios e patrocinar o encontro de clientes de potenciais investidores.

A nova estratégia, apresentada oficialmente na última quarta-feira em um encontro com pesos-pesados do agronegócio em Santiago, no Chile, será implementada por etapas até 2013. Ao todo, aproximadamente 300 produtores devem fazer parte do programa. Cerca de dois terços deles estão na região do Cerrado.

Alguns serviços serão oferecidos a todos os clientes, como um sistema de pronta entrega de defensivos. Uma parte deles, porém, será disponibilizada a partir de um mecanismo de pontos, semelhante a um programa de milhagem. Haverá ainda um conjunto de ações destinadas apenas aos produtores considerados “estratégicos”.

Desde 2005, a Bayer adotou um conjunto de medidas para reforçar sua estratégia comercial. “Entendíamos que a Bayer tinha tecnologia e um bom portfólio de produtos, mas precisávamos melhorar nosso acesso ao mercado”, conta Gerhard Bohne, diretor de Operações de Negócios da Bayer CropScience no Brasil.

A ideia de estreitar a relação com os grandes produtores surgiu há aproximadamente 15 meses, e partiu do diagnóstico de que a importância dos grandes grupos na aquisição de insumos agrícolas vem aumentando em ritmo acelerado e que essa tendência deverá se manter nos próximos anos.

Os grandes grupos agrícolas, estima Bohne, já respondem por 29% das compras de defensivos no País – os 71% restantes são comercializadas via revendas e cooperativas aos produtores de menor porte. A aposta é que os grandes, que possuem um expressivo poder de barganha em suas negociações, vão abocanhar uma fatia ainda mais relevante no futuro, um desafio aos fornecedores de insumos.

“Com as consolidações e o aumento da concentração no campo, somadas à expansão do Cerrado e do setor sucroalcooleiro, a participação das vendas diretas vai crescer no Brasil”, assegura Bohne, que não arrisca um número. Não à toa, a Bayer criou equipes técnicas e de venda voltadas exclusivamente para esses clientes, assim como uma divisão específica na área de logística para atender a esses players.

A criação de uma área de serviços se insere nessa estratégia de diferenciação. “Entendemos que apenas tecnologia e inovação não são mais suficientes. Os serviços agora se tornam parte integrante da nossa oferta de soluções”, afirma o executivo.

Mas a preocupação em oferecer serviços tão diversos não poderia desviar a Bayer de seu foco principal? Bohne garante que não. “Vamos terceirizar tudo aquilo em que não somos experts. Não vamos ter uma empresa de capacitação em sucessão, e nem queremos isso. Nosso negócio continua a ser tecnologia”, afirma. A área de serviços, acrescenta, não terá uma receita própria.

A Bayer CropScience é a segunda maior empresa de defensivos do mundo, atrás da Syngenta. No primeiro semestre, a companhia faturou €4,2 bilhões em todo o mundo, dos quais 15% na América Latina, África e Oriente Médio. As vendas de defensivos representam aproximadamente três quartos desse valor. A companhia não abre seus números relativos ao Brasil.

 

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Embrapa avalia cobrança de royalty sobre feijão transgênico

28, outubro, 2011 Sem comentários

GAZETA DO POVO, 25/10/2011

Apesar de a cobrança de royalty não fazer parte dos protocolos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embra­­­pa), essa prática vem sendo discutida pela instituição como estratégia de proteção da tecnologia desenvolvida pela unidade especializada em arroz e feijão, localizada em Santo An­­­tônio de Goiás (GO). “Se constatarmos que haverá maior distribuição da tecnologia aos produtores brasileiros sem royalty, não vamos cobrar”, disse Filipe Teixeira, especialista em patentes da Embrapa. Porém, outras questões estão em jogo, acrescentou. Sem cobrança, haveria risco de a difusão da tecnologia ocorrer de forma desordenada (um dos objetivos da Embrapa e incentivar o uso de sementes registradas). Além disso, o órgão de pesquisa considera que o feijão resistente ao vírus do mosaico dourado, principal doença da cultura no Brasil, pode interessar a outros países produtores, como Argentina e Estados Uni­­­dos. Nesses casos, os royalties passam a ser vistos como uma forma de os pesquisadores brasileiros contarem com mais recursos para novos projetos.

Soja transgênica do Brasil depende de aprovação externa

28, outubro, 2011 Sem comentários

A soja chamada de brasileira é uma parceria da BASF com a Embrapa.

A matéria mostra que a coexistência não é possível nem entre os transgênicos, e que a contaminação irá ocorrer ao longo da cadeia de produção.

A empresa afirma que espera aumentar o uso de seu herbicida com a entrada de sua semente no mercado E a promessa de que os transgênicos iriam reduzir o uso de agrotóxicos?

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GAZETA DO POVO, 25/10/2011, por José Rocher

A primeira soja transgênica brasileira, a Cultivance, está praticamente pronta para a multiplicação de sementes, mas essa etapa só deve deslanchar a partir da aprovação do consumo na China e na União Europeia. Conforme a Embrapa Soja, que desenvolve o projeto com a multinacional alemã Basf, é necessária a liberação em ambos os mercados, principais importadores, para que não haja problemas com a produção comercial, liberada pela Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNBio) desde 2009.

A previsão inicial, de que a alternativa chegasse aos produtores brasileiros nesta safra de verão, vem sendo adiada. A estimativa agora é de que o cultivo em larga escala comece daqui dois anos. Com o uso da semente, a Basf pretende ampliar a comercialização dos herbicidas que acompanham a nova tecnologia, também chamados de Cultivance.

O chefe de Pesquisa e Desen­­volvimento da Embrapa Soja, José Renato Farias, explica que, se a soja Cultivance for produzida em escala antes da aprovação do consumo no mercado externo, seus traços genéticos podem aparecer em cargas de exportação. Para isso, bastaria que um caminhão com restos de grãos não autorizados no exterior fosse usado para transportar uma carga de soja até os portos marítimos. A contaminação colocaria em risco as vendas do país. Poderia resultar em embargos sanitários e, consequentemente, em prejuízos astronômicos.

O quadro é novo para o Brasil. Nos casos da soja transgênica RR, cultivada em escala comercial desde 2006/07 – e dos milhos geneticamente modificados que se difundiram a partir de 2008/09 –, a liberação da CTNBio ocorreu após a aceitação dos mercados importadores. Nos últimos cinco anos, o Brasil acelerou seu processo de avaliação de novas sementes transgênicas. Colocou-se à frente dos importadores. Porém, a partir de agora, o aval da CTNBio não basta para que as alternativas ganhem os campos agrícolas. Os mercados consumidores é que passam a “liberar” o cultivo.

Caminhos e desafios da agroecologia – Teresópolis, 08/11

28, outubro, 2011 Sem comentários

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Campanha Contra os Agrotóxicos realiza 3º encontro de formação no Rio

27, outubro, 2011 Sem comentários

por Alan Tygel, do boletim do MST RJ | 26/10 a 8/11

 

O comitê RJ da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida aproveitou o dia mundial da alimentação (16/10) para realizar o seu terceiro encontro de formação. Desta vez, o assunto foram as doenças causadas pelos agrotóxicos. Na parte da manhã foram abordados aspectos laterais às doenças, como classificação toxicológica, medidas e sistemas de notificação. Após o almoço, discutiu-se as doenças em si, com a apresentação do estudo da pesquisadora Silvana Rubatto (ENSP/Fiocruz) sobre o assunto.

Dada a gravidade do assunto, o grupo optou por começar o dia com uma mística animadora. Após cantar a música Xote Ecológico, de Aguinaldo Batista e Luiz Gonzaga, o grupo cantou o recém composto Xote Agroecológico, de Igor Conde. A primeira música, composta em 1989, um ano após o assassinato de Chico Mendes, traz uma visão bem pessimista sobre os efeitos da ação do homem sobre a natureza. Já a nova versão traz um alento a todos nós que acreditamos num futuro agroecológico:

Xote Ecológico (1989)
Aguinaldo Batista e Luiz Gonzaga

Não posso respirar, não posso mais nadar
A terra está morrendo, não dá mais pra plantar
Se plantar não nasce se nasce não dá
Até pinga da boa é difícil de encontrar

Cadê a flor que estava aqui? (Poluição comeu)
E o peixe que é do mar? (Poluição comeu)
E o verde onde que está? (Poluição comeu)
Nem o Chico Mendes sobreviveu

Xote Agroecológico (2011)
Igor Conde

Já posso respirar e voltar a plantar
A terra renascendo, brotando sem parar
É Agroecologia e agricultura familiar
Com organização e resistência popular

Cadê o arroz e o feijão? (Plantou e colheu)
E o milho de São joão? (Plantou e colheu)
E a agrofloresta como tá? (Plantou e colheu)
Transgênico e veneno desapareceu

Em seguida, Ivi Tavares apresentou um panorama geral sobre as classificações dos agrotóxicos e os tipos de doença que cada um pode causar. Os venenos podem ser classificados quanto ao seu grupo químico – organoclorados, organofosforados, carbamatos, etc, – quanto à sua toxicidade – extremamente tóxicos (Faixa vermelha), altamente tóxicos (Faixa Amarela), mediamente tóxicos (Faixa Azul) e pouco ou muito pouco tóxicos (Faixa Verde) ou ainda quanto ao seu efeito: fungicidas, herbicidas, inseticidas, etc. Essa última classificação levou o grupo a debater sobre a possibilidade de se chamar os agrotóxicos de biocidas, reforçando que eles agem não só contra a vida de insetos, fungos, plantas, mas também contra a do ser humano.

Em seguida, Gabriel Fernandes apresentou dois conceitos muito controversos: limite máximo de resíduos (LMR) e ingestão diária aceitável (IDA). Ambos são definidos de forma extremamente arbitrária, e muitas vezes baseados em pesquisas das próprias empresas. Mas o absurdo não para por aí: estes estudos, além de tudo, não são publicados em revistas especializadas. Ou seja, não passam pelo crivo da comunidade científica. Esta situação foi ilustrada com um trecho do filme “O veneno nosso de cada dia”, que retrata muito bem as portas giratórias entre governos, empresas e agências reguladoras.

Gabriel chamou ainda a atenção para a falsa imagem de segurança que estes limites criam. Ele exemplificou: “Quando temos uma intoxicação aguda, na qual o agricultor é exposto a altas doses de venenos e apresenta sintomas poucas horas depois, pode-se argumentar que foi uma acidente, uma situação não prevista, mesmo que este argumento seja bastante frágil. Mas no caso das intoxicações crônicas, que aparecem após anos de exposição a baixas doses de agrotóxicos, não há justificativa. Foi tudo dentro do permitido, dentro do limite seguro, e mesmo assim surgem as doenças graves como câncer, má-formação e depressão, que em muitos casos leva ao suicídio.”

Gabriel apresentou ainda o PARA – Programa de Monitoramento e Avaliação de Resíduos de Agrotóxicos. Realizado pela ANVISA, o programa analisa diversas variedades de frutas, legumes e verduras nos supermercados e faz duas avaliações: se há mais resíduos de agrotóxicos do que o permitido (LMR), e se há a presença de agrotóxicos não permitidos para aquela cultura.

Além do PARA oficial, existem alguns programas similares nos níveis estadual e municipal. Um dos mais interessante é o aplicado no Ceasa de Pernambuco. Financiado através de uma taxa cobrada de cada caminhão que entra, o programa, além de fazer as medições, rastreia a origem dos produtos irregulares. Em caso de problemas, a mercadoria do produtor irregular é proibida de entrar no mercado. Agentes de fiscalização são enviados para a propriedade, que é obrigada a sanar os problemas antes de voltar a comercializar a produção.

Após o almoço, foi encenada uma mística. Nela, buscou-se retratar uma situação que infelizmente ainda é cotidiana entre os agricultores familiares. Um trabalhador, preocupado com sua lavoura, aplica altas doses de veneno. Seu companheiro tenta alertar, avisando que aquele produto é nocivo à saúde, mas o aviso é recebido com escárnio: “Isso não faz mal não, eu sou forte, posso aguentar.” Após seguidas aplicações, o agricultor desmaia. A partir de então, ele decide parar de usar agrotóxicos.

A formação seguiu-se com a apresentação dos sistemas de informações sobre intoxicações. Alan Tygel ressaltou a importância de se ter dados confiáveis sobre as intoxicações: “Em primeiro lugar, os dados são importantes comprovarmos os estragos que estão sendo causados pelos agrotóxicos. Além disso, eles servem para planejar as ações de saúde pública. Mas o mais importante é a capacidade que os dados têm de consolidar uma imagem de que os agrotóxicos fazem mal e devem ser banidos da sociedade. Assim como ocorreu no caso do fumo e do amianto, qualquer pessoa deve saber os riscos que estamos correndo como maiores utilizadores de agrotóxicos no mundo.”

Apesar de todos os problemas, que vêm desde a dificuldade no diagnóstico até as falhas na hora da notificação, o Sinitox ainda é a melhor base de dados que temos disponível. Os dados chegam até esse sistema através dos CIATs – Centros de Informação e Assistência Toxicológica, que recebem as ligações do disque-intoxicação. Umas das dificuldades é que as intoxicações não são obrigatoriamente notificadas aos CIATs, e a notificação do CIATs para o Sinitox também é voluntária. Além disso, alguns CIATs passaram a notificar as ocorrências para o Notivisa, sistema coordenado pela ANVISA.

Em seguida, a pesquisadora Silvana Rubatto apresentou sua pesquisa acerca das ocorrências de câncer relacionadas à profissão dos pacientes, na região serrana do Rio de Janeiro. A região é a maior produtora de hortaliças do estado, com alto índice de consumo de agrotóxicos.

A primeira parte da exposição da pesquisadora abordou questões gerais relacionadas aos agrotóxicos e as doenças que causam. Em seguida, Silvana abordou as causas de morte mais frequentes no Brasil e entrou mais especificamente nos dados sobre o câncer. Segundo ela, em 2002 foram registrados 10 milhões de casos no mundo, e para 2020 são projetados 15 milhões. O número de mortes, no entanto, deve subir mais: dos 6 milhões verificados em 2002, projeta-se 12 milhões para 2020, sendo a alimentação o maior fator de risco, seguido pelo tabaco.

O estudo na região serrana foi motivado pelo alto índice de câncer verificado naquela região, onde o consumo de agrotóxicos é 1822% maior que a média do estado do RJ. O estudo concluiu que alto índice de ocorrência de câncer é motivado por fatores ambientais. No entanto, a falta de dados mais precisos nos prontuários, como a profissão do paciente, impediu a pesquisa de relacionar os casos diretamente ao manuseio de agrotóxicos. Entretanto, verificar um alto índice de câncer na região que mais utiliza agrotóxicos no RJ já nos dá uma pista dos males que este produtos causam a quem os aplica.

A formação terminou com uma conversa sobre os rumos da campanha, e as próximas ações a serem desenvolvidas. Entre elas, estão a participação em feiras na cidade, e as ações diretamente com agricultores.

Transgênicos contaminam as sementes crioulas. Entrevista especial com Magda Zanoni

26, outubro, 2011 Sem comentários

IHU/Unisinos, 26/10/2011

Embora tenha crescido a produção de transgênicos no mundo, não é possível comprovar os benefícios agrícolas e econômicos da transgenia. De acordo com a organizadora do livro Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência, Sociedade (Brasilia: Nead, 2011), o tema ainda não é consenso entre os cientistias. “Enquanto a Monsanto faz estudos de impacto em um prazo mínimo, com um número reduzido de animais que alimentam-se de transgênicos, há cientistas como Gilles-Eric Serralini, que realizam estas pesquisas há vários anos, tendo já obtido resultados sobre as modificações fisiológicas dos animais de experimento que corroboram com a presença de riscos”, aponta.

Defensora de uma ciência cidadã, Magda Zanoni argumenta que os novos estudos científicos devem considerar “as necessidades reais da população em termos de saúde e alimentação”. Em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, ela informa que atualmente quatro milhões de pessoas morrem de malária no mundo e, portanto, a transgenia não deve ser prioridade. E reitera: “A sociedade civil deve ter um papel preponderante na escolha das linhas de pesquisa e das inovações tecnológicas”.

Magda Zanoni é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em Sociologia pela Université Paris I. Atualmente é funcionária da Université de Paris X, e da Universite de Bordeaux II. Atualmente é membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, na qual representa o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA. Também é pesquisadora do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead) do MDA. Magda Zanoni e Gilles Ferment lançaram recentemente o livro Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência, Sociedade (Brasilia: Nead, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A partir da afirmativa de que é preciso debater para se construir uma ciência democrática, que aspectos a senhora destaca como primordiais para o uso dos transgênicos de forma sustentável e em benefício da sociedade?

Magda Zanoni – A questão dos transgênicos ainda não foi discutida com a sociedade civil. Os transgênicos utilizados na agricultura não provam que a maioria dos agricultores familiares e camponeses do mundo seja beneficiada economicamente. Além disso, não há constatações de que a transferência de genes promovida pelas grandes multinacionais como a Monsanto e a Syngenta, que criam novos seres vivos, não tenha impactos sobre a saúde e o meio ambiente. A ciência cidadã leva em conta as necessidades reais da população em termos de saúde e alimentação. Os investimentos nessa biotecnologia não são destinados para eliminar a fome no mundo nem para resolver as exigências de saúde das populações mais necessitadas.

IHU On-Line – Em seu livro, a senhora apresenta um enfoque multidisciplinar para entender os embates em torno do tema dos transgênicos. Como vê a produção de organismos geneticamente modificados (OGMs)?

Magda Zanoni – O Brasil e o governo brasileiro devem fazer uma listagem das principais pesquisas científicas e inovações tecnológicas essenciais para promover um desenvolvimento sustentável com igualdade. Isso pode ser feito através de consultas, debates setoriais, locais, regionais e nacionais, como, aliás, já foi feito no primeiro mandato do governo Lula.

IHU On-Line – Por que a sociedade civil tem um papel tão importante no debate sobre o uso dos transgênicos?

Magda Zanoni – A sociedade civil deve ter um papel preponderante na escolha das linhas de pesquisa e das inovações tecnológicas. Há quatro milhões de indivíduos morrendo de malária no mundo por ano. Portanto, a escolha prioritária não pode ser para os transgênicos?

IHU On-Line – Quais os principais riscos do uso de transgênicos?

Magda Zanoni – A contaminação de cultivos com variedades crioulas tem consequências direta sobre a redução da agrobiodiversidade. Os mecanismos internos que a biologia molecular e a genética estudam para a transferência de genes e a criação de novos seres vivos não encontram, no mundo da ciência, unanimidade. Enquanto a Monsanto faz estudos de impacto em um prazo mínimo, com um número reduzido de animais que se alimentam de transgênicos, há cientistas, como Gilles-Eric Serralini, que realizam essas pesquisas há vários anos, tendo já obtido resultados sobre as modificações fisiológicas dos animais de experimento que corroboram com a presença de riscos.

Não é por acaso que cientistas cidadãos, que comunicam seus resultados a organizações da sociedade civil, sejam marginalizados ou depreciados no mundo da tecnociência. O presidente da CTNBio, em sessão plenária, declarou que seus trabalhos estavam ultrapassados.

IHU On-Line – Como avalia a liberação comercial de sementes transgênicas? Existe aí um risco de consumo? Por quê?

Magda Zanoni – Há risco de consumo de transgênicos porque inexistem estudos epidemiológicos que comprovem a não existência de riscos. Se os laboratórios de medicamentos levam até dez anos para pesquisar os benefícios e riscos de medicamentos originários da transgênese, é de se perguntar as razões de tanta pressa das multinacionais para liberar a comercialização de produtos transgênicos. Convém salientar que o mercado da soja no Brasil já corresponde a 80% do total, e quatro multinacionais estão batalhando para obter o mercado mundial de sementes.

IHU On-Line – Como avalia a questão da não obrigatoriedade de rotulagem dos produtos que contêm ingredientes geneticamente modificados? Que consequências podem ocorrer com a possível perda do direito de saber se o alimento que se está consumindo contém ou não ingredientes transgênicos?

Magda Zanoni – Em primeiro lugar, essas são questões sobre a democracia. Por que não se aplica uma lei se ela foi votada pelo Parlamento? Os deputados não são os representantes do povo? Em segundo lugar, a liberdade também está em questão. Qual é o princípio democrático que não aprova a livre escolha do consumidor em comprar qualquer produto sabendo o que compra? Em vários países europeus a rotulagem foi objeto de grandes reivindicações. A França, por exemplo, votou a obrigação de rotulagem em dezembro de 2010 em função das pressões dos movimentos sociais.

Feijão transgênico tem venda liberada
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Milhares de cientistas e a ONU estão preocupados com o uso do milho transgênico

26, outubro, 2011 1 comentário

26/10/2011

O milho crioulo, originário do México, já que ali se encontram 59 de suas variedades, não apenas é o cultivo mais importante no mundo e faz parte do patrimônio cultural e alimentar da humanidade, mas também servirá para fazer frente à mudança climática e à fome, garantiu Antonio Turrent, vice-presidente da União de Cientistas Comprometidos com a Sociedade (UCCS).

A reportagem é de Angélica Enciso e está publicada no jornal mexicano La Jornada, 25/10/2011. A tradução é do Cepat (Via IHU/Unisinos)

Turrent asseverou que grande parte da plantação feita no país é das variedades nativas, razão pela qual acabar com elas e semear milho transgênico significaria uma produção próxima a zero do grão crioulo nessas áreas.

Não haverá maneira de deter o fluxo genético dos milhos transgênicos, razão pela qual se estenderá a todo o país em um caminho sem retorno. Os grãos geneticamente modificados também não representam produtividade maior, além de colocarem em risco os milhos nativos, assinalou.

O Greenspeace, Sementes da Vida e Raúl Hernández – ganhador do Iniciativa México 2010 – assinalaram que já se detectou milho contaminado com transgênicos. Por essa maneira, coloca-se em risco a condição privilegiada do México como reservatório genético.

Entidades internacionais privilegiadas, como a FAO, demonstraram sua preocupação com a contaminação genética no caso de se introduzirem cultivos transgênicos nos centros de origem, por exemplo, a batatinha transgênica na Bolívia ou o milho transgênico no México. Fizeram um apelo à organização Iniciativa México para não permitir que se contamine com a premiação o projeto Milhos Mexicanos, que, garantiram, foi financiado pela Monsanto, empresa transnacional que busca comercializar sementes transgênicas no país, as quais representam um sério risco de contaminação por fluxo genético os milhos mexicanos.

Aproximadamente mil cientistas nacionais e internacionais manifestaram sua preocupação com os riscos do uso de milho transgênico no México, e inclusive o relator especial da Organização das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Olivier De Schutter, propôs, em sua recomendação oficial, a volta da moratória sobre as provas de campo e no cultivo comercial de milho transgênico, com a finalidade de proteger a biodiversidade das gramíneas.

Os consumidores serão afetados, pois o principal alimento – que provê 55% de ingestão calórica diária e 22% das proteínas aos mexicanos – será colocado em perigo. Também coloca em perigo a produção e variabilidade que possibilita a riqueza de pratos mexicanos, para cada um dos quais se requer uma variedade específica, disse Adelita San Vicente Tello, da Sementes da Vida.

Além disso, está demonstrado que a coexistência de milhos transgênicos e não transgênicos não é possível. É muito grave que indústria e governo façam falsas promessas para os problemas do campo, como os milhos transgênicos tolerantes a secas. É do conhecimento da Monsanto e dos funcionários da Secretaria de Agricultura, Pecuária, Desenvolvimento Rural, Pesca e Alimentação que estes milhos acabarão na lista de promessas falidas da tecnologia dos transgênicos: maior rendimento e menor uso de agroquímicos, disse, por sua vez, Alejandro Espinosa, das UCCS.

Para ler mais:

Estelionato ambiental

26, outubro, 2011 Sem comentários

por Rogério Rocco

O DIA, 26/10/2011

Há 30 anos nascia no Brasil a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), aprovada pela Lei 6.938, de 1981. Na ocasião, que marcou a inauguração do Direito Ambiental brasileiro, foram criados o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e diversos instrumentos para a materialização de uma política de Estado para a proteção ambiental.

Ganhou destaque o surgimento do licenciamento ambiental, pelo qual são avaliadas as condições para a instalação e funcionamento de atividades utilizadoras de recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras. Com isso, foi possível evitar inúmeros danos ao meio ambiente e à qualidade de vida, assim como foi viabilizada a aplicação de medidas mitigadoras e compensatórias pelos impactos causados pelas atividades humanas.

A aprovação da Política Nacional de Biossegurança, em 2005, foi a primeira derrota imposta à PNMA, eis que dispensou do licenciamento a produção e a comercialização de Organismos Geneticamente Modificados, conhecidos como transgênicos, para atender exclusivamente a interesses econômicos transnacionais.

Nos últimos tempos, porém, temos assistido a uma avalanche de movimentos políticos que visam à desmoralização do licenciamento, sempre em nome de interesses econômicos e modelos de desenvolvimento equivocados, questionáveis e insustentáveis. Basta avaliar os casos de Belo Monte, Angra III, Arco Metropolitano e Estrada Capelinha-Mauá, dentre inúmeros outros. Neles, foram desconsiderados impactos e requisitos legais, assim como são descumpridas condicionantes presentes nas licenças emitidas.

Com um histórico desses, o licenciamento ambiental está se transformando num verdadeiro estelionato ambiental, em grave detrimento das futuras gerações.

Rogério Rocco é analista ambiental e mestre em Direito da Cidade

 

Pesquisadora afirma que biotecologia surgiu para reforçar os agrotóxicos

25, outubro, 2011 Sem comentários

Palestra de Magda Zanoni foi realizada no auditório da Emater/RS-Ascar, em Porto Alegre, durante lançamento da Campanha Permanente Contra o Uso de Agrotóxicos e Pela Vida

EcoAgência/NEJ/RS    (Via blog da Campanha no DF)

Por Adriane Bertoglio Rodrigues – jornalista Emater*

Evento foi realizado no auditório da Emater-RS – Ascar

 

Foi lançada a Campanha Permanente Contra o Uso de Agrotóxicos e Pela Vida no RS, que reúne diversas organizações e entidades. A cerimônia aconteceu na sede da Emater/RS-Ascar, na noite desta segunda-feira (24). Com o auditório lotado, mais de 100 pessoas assistiram ao filme O Veneno Está na Mesa, dirigido por Sílvio Tendler, acompanharam a palestra da bióloga e socióloga Magda Zanoni,e debateram projetos e ações desenvolvidas no Estado. A abertura do lançamento foi prestigiada pelo delegado da Superintendência Regional do MDA, Nilton Pinho De Bem, e pelo diretor de Crédito do Banrisul, Guilherme Cassel, entre outras representações de movimentos sociais e ambientais. Também participaram integrantes da Associação Nacional de Pequenos Agricultores de Cuba, que fazem intercâmbio no RS.

Durante sua palestra, rica em argumentos que comprovam todos os males causados pelos venenos agrícolas, Magda Zanoni afirmou que a biotecnologia veio para reforçar a venda de agrotóxicos. “E conseguiu”, argumentou. Ela acrescentou: “o glifosato, herbicida muito usado na soja transgênica, não é o maior dos males. Estão misturando ao glifosato adjuvantes que chegam a ser três vezes mais tóxicos”.

No entender da pesquisadora Magda Zanoni, a relação entre os agrotóxicos e os transgênicos é estreita. Em relação aos agrotóxicos temos muitas pesquisas e informações sobre contaminações e casos de morte, explicou. Já sobre os transgênicos ainda não foram produzidos estudos conclusivos comprovando que são inofensivos à saúde humana e ao meio ambiente. “Ao contrário”, complementa. “Um pesquisador que conheço trabalhou durante cinco meses em testes com camundongos alimentados com transgênicos. Nesse tempo, constatou aumento no volume do fígado, do pâncreas, redução das hemáceas e complicações renais. Esse mesmo tipo de teste em camundongos é realizado pela Monsanto em apenas 11 dias”.

Desafiar o poder público – Representando o governador Tarso Genro, o diretor técnico da Emater/RS, Gervásio Paulus, salientou a importância da Campanha. “É preciso desafiar o poder público em todos os níveis, até porque os governos têm um papel estratégico, que possibilita promover o avanço e o acúmulo de conhecimentos”, defendeu Paulus, ao citar eventos como o realizado nesta terça-feira (25) em Ijuí, sobre transição de sistemas de produção de grãos, e, na quarta-feira (26), em Taquara, sobre sistemas agroflorestais. “Através de momentos como este e de eventos que provoquem o despertar da consciência de técnicos, agricultores e consumidores, é que poderemos garantir qualidade de vida para todos”, destacou o diretor. Ele finalizou com uma frase de José Lutzenberguer, (pioneiro/fundador da Agapan), que atenta para a importância de se manter ações sustentáveis. “Não podemos considerar como progresso o que não somo para a facilidade humana”.

O vídeo mostra depoimentos de agricultores que optaram por não usar agrotóxicos. Do RS, tem agricultores de Caiçara, Paraíso do Sul, Agudo, Boa Vista das Missões e Iraí, na comunidade Sanga dos Índios, que desafiam as transnacionais químicas e se contrapõem ao modelo da chamada Revolução Verde. O site EcoAgência também é mencionado.

Alertas para a saúde – De acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), os hortigranjeiros preocupam, pois recebem altas doses de agrotóxicos, muitas vezes proibidos, e são consumidos in natura. Os alimentos mais contaminados são beterraba (33% de contaminação), alface (38%), mamão (39%), abacaxi e couve (44%), morango (51%), pepinos (55%), uva (56%) e pimentão (80%). Nos 10 anos, entre 1998 e 2008, a venda de agrotóxicos aumentou 140%. “Não é à toa que são 5,2litros por pessoa/ano”, informa o vídeo, que será disseminado pelos participantes.

Outro fator que favorece o crescente consumo de agrotóxicos é o estímulo fiscal oferecido pelos governos, que dá descontos de 60 a 100% para as empresas químicas. “Faltam financiamento e políticas públicas para os pequenos agricultores, para que eles aumentem e diversifiquem a produção, provocando a baixa no preço dos orgânicos”, critica Dario Milanez, da Via Campesina. Ele questiona a expansão de monocultivos, como a soja, “que ocupa mais da metade da terra agricultável no Brasil. A expansão da soja, a transgenia e o aumento do uso de agrotóxicos é suficiente para trazer ainda mais riscos para a saúde das pessoas e para a contaminação do ambiente”.

O chefe de Gabinete da Emater/RS, Jaime Weber, afirma o compromisso da Instituição em mudar essa realidade, e diz lamentar erros médicos em diagnósticos de contaminação, prescrevendo serem casos de leptospirose. “Isso ocorre na região do fumo”. Para Jaime, “cada vez mais precisamos buscar informações e disputar por um modelo mais saudável”. Para isso, ele sugere repensar a militância, pressionar os governos e construir alianças estratégicas com os municípios. “Precisamos debater com conteúdo e informação”.

O pioneirismo do RS na promulgação da Lei Estadual Contra os Agrotóxicos, na década de 80, foi destacado pelo presidente da Agapan, Francisco Milanez, ao criticar a lei nacional como “uma cópia mal feita”. Ele defende o repasse dos royalties dos transgênicos para resolver o “conclamado problema da fome no mundo”.

Programas de crédito de incentivo à produção orgânica no RS devem ser anunciados em breve pelo Banrisul. A informação é da representante da instituição, Simone Azambuja, ao citar o Rio Grande Ecológico, que será recriado para custear a compra de sementes crioulas e para investimentos na agroecologia.

Atualmente, o Comitê Estadual Contra o Uso de Agrotóxicos e Pela Vida integra 30 entidades, “mas outras estão convidadas a participar”, salienta um dos coordenadores, o estudante Edmundo Oderich. A próxima reunião do comitê será na segunda-feira (31), às 18h30, na sede da PGDR (Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural), ao lado do DCE da Ufrgs, em Porto Alegre.

Ao final do debate, foi anunciada a realização do XII Seminário Estadual sobre Agroecologia XI Seminário Internacional sobre Agroecologia, de 28 a 30 de novembro, no auditório Dante Barone, na Assembleia Legislativa do RS, que tem como tema “Um outro olhar para o desenvolvimento”. Também foi citada a realização, em Pelotas, do lançamento regional da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, no dia 23 de novembro, na Faculdade Agrícola São Maciel.

* Colaboração de Juarez Tosi (EcoAgência).

RS lança campanha contra agrotóxicos

25, outubro, 2011 Sem comentários

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Para especialista, feijão transgênico foi liberado no Brasil sem estudos consistentes

24, outubro, 2011 Sem comentários

Caros Amigos, 20/10/2011.

Em entrevista, o assessor técnico da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, Gabriel Fernandes, aponta as falhas na liberação de sementes transgênicas no Brasil e os problemas de seu uso indiscriminado. Apesar das polêmicas em torno do tema, segundo o assessor, somente entre 2008 e 2011 foram liberados 29 tipos de sementes transgênicas, entre soja, milho e algodão, e o feijão é o próximo alvo. Para piorar, o uso dos trangênicos avança em parceira com o aumento do uso de agrotóxicos nas lavouras. Confira a entrevista:

Por Paula Salati

Caros Amigos – Foram apontadas irregularidades e erros no estudo da Embrapa sobre o feijão transgênico 5.1. Gostaria que comentasse um pouco sobre as falhas encontradas no estudo.

Gabriel Fernandes – Foram apontados dois tipos de problemas: estudos não realizados e estudos de consistência duvidosa. Os testes de campo foram feitos em apenas três localidades (Londrina-PR, Sete Lagoas-MG e Santo Antônio de Goias-GO), enquanto a lei exige que sejam gerados dados em todas as regiões onde a nova semente poderá vir a ser plantada. Ou seja, as informações disponíveis são insuficientes em termos nacionais. Nenhum estudo ambiental foi feito no Nordeste, que responde por cerca de 25% da produção nacional de feijão.

Não foram feitos ensaios alimentares com animais prenhes nem ao longo de duas gerações, também requisitados por lei. Sem isso não se pode ter indicativos do risco potencial de médio e longo prazo decorrente da ingestão continuada desse produto. Lembremos que o brasileiro consome em média 9 kg de feijão por ano.

Um dos membros da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança apresentou parecer criticando a fragilidade dos dados da Embrapa, com destaque para a avaliação de segurança alimentar. De 10 ratos que fizeram parte de um experimento, apenas 3 foram testados, todos machos e antes de atingirem idade reprodutiva, quando há grandes mudanças hormonais. Mesmo assim foram observadas diferenças em relação aos que consumiram feijão comum, como maior tamanho das vilosidades do intestino delgado. Observou-se ainda diminuição do tamanho dos rins e aumento no peso do fígado dos animais alimentados com o feijoeiro 5.1. São dados que sugeririam ao menos a repetição dos ensaios. Cabe perguntar qual revista científica aceitaria publicar estudo feito com uma amostra que sequer permite análise estatística. Mesmo assim o parecer crítico foi derrotado.

Além disso, pesquisadores independentes da Universidade Federal de Santa Catarina criticaram o fato de dados indispensáveis à análise de risco do produto terem sido mantidos sob sigilo.

Caros Amigos – Como avalia a votação da liberação do feijão transgênico pela CTNBio no Brasil? Há pressões econômicas envolvidas?

Já era esperada. A CTNBio nunca recusou um pedido de liberação comercial de transgênico. Uma vitória das empresas de biotecnologia dotou essa comissão de superpoderes, que passaram a vigorar com a nova lei de biossegurança, aprovada em 2005 pelo Congresso com o apoio do governo e dos ruralistas. Criou-se uma comissão composta por doutores, não-remunerados para este fim, que se reúnem uma vez por mês em Brasília. Suas decisões enquadram Ibama, Anvisa e demais órgãos da administração pública. Muitos de seus integrantes fazem pesquisa na área e podem se beneficiar direta ou indiretamente da liberação de transgênicos.

A novidade neste caso foi que o presidente da Comissão assumiu defesa pública do feijão modificado antes mesmo de sua votação, assim como outros 15 integrantes da Comissão, que promoveram abaixo-assinado on-line nas semanas que antecederam a votação, endereçado a várias autoridades, pedindo a liberação comercial do produto. Parece que o juízo estava formado antes mesmo da apresentação do voto contraditório e da conclusão do processo. A lei, entretanto, impede de votar aqueles que possuam envolvimento pessoal ou profissional com a matéria. O feijão foi aprovado com exatos 15 votos. Pedimos ao Ministério Público que avalie a ocorrência de conflito de interesses neste caso.

Caros Amigos – Um dos motivos bastante utilizados pelos defensores da liberação do feijão transgênico 5.1, foi que ele seria resistente ao vírus “Mosaico Dourado”. Há outras maneiras de se combater esse vírus? Se sim, quais são?

Sim, e há alternativas da própria Embrapa que já comprovaram que o plantio orgânico de feijão é viável e rentável (clique para ver exemplo). A principal ideia da agricultura orgânica é aumentar o equilíbrio ecológico nas plantações, fazendo rotações de culturas, plantios diversificados e tratando o solo com matéria orgânica para que ele recupere sua capacidade produtiva. A planta que cresce num solo biologicamente ativo é mais resistente a pragas e doenças.

Por outro lado, há uma relação entre a ocorrência do vírus do mosaico dourado e o plantio intensivo de três safras seguidas no mesmo ano agrícola, bem como com o aumento da área de soja, que abriga o inseto vetor da doença. É uma visão um tanto reducionista achar que o problema será controlado com a alteração de um gene da planta mantendo-se todo o resto.

Caros Amigos – Poderia me dizer quais as principais diferenças entre a composição de um feijão normal e o feijão 5.1?

Essa foi outra crítica feita em relação aos dados apresentados. Foram identificadas diferenças estatisticamente significativas nos teores de proteínas e de vitamina B12 quando a variedade modificada foi comparada com a parental, sendo que esses valores deveriam ter sido os mesmos. Quem acompanhou a votação em Brasília pôde ouvir os defensores da liberação argumentarem que esses valores, embora cientificamente válidos, não deveriam ser levados em consideração: “Se há mais de uma proteína e vitamina e menos de outra, não há problema, pois isso se compensa com o arroz, verdura ou outro alimento que será ingerido junto com o feijão”. Também falou-se que a panela de pressão pode anular as diferenças com o cozimento. (sic)

Caros Amigos – Quais outras conseqüências do feijão transgênico para a saúde e para a segurança alimentar?

Outras, para serem conhecidas, exigiriam estudos que não foram apresentados. O CONSEA manifestou à presidente Dilma sua preocupação com a liberação precipitada. O Ministério da Saúde votou pela diligência, pedindo mais estudos.

Caros Amigos – E para agricultura familiar e o meio ambiente, o que a liberação do feijão transgênico implica?

Ainda não está claro se a Embrapa cobrará royalties por suas sementes, assim como fazem as grandes empresas de biotecnologia.

Além disso há o risco de o agricultor trocar suas sementes por uma tecnologia que pode ter curta durabilidade. Os dados da Embrapa mostraram que até 36% das plantas derivadas da variedade transgênica foram suscetíveis ao vírus. Se isso se confirmar nas plantações, novas versões do vírus resistente poderão passar a causar prejuízos em um pouco tempo.

Outro problema potencial é a contaminação genética das sementes locais ou crioulas. Há estudos mostrando que pode haver até 13% de polinização cruzada entre plantas de feijão, embora não se saiba ao certo a que distâncias. Uma pesquisa de mestrado feita em 5 municípios do agreste paraibano identificou 55 variedades de feijoeiros adaptados às condições locais e mantidas por produtores familiares. A liberação do feijão transgênico não prevê nenhuma medida para preservar essa riqueza genética.

Caros Amigos – Qual sua avaliação sobre o tratamento governamental em relação à política alimentar no Brasil?

Há avanços, mas no geral prevalece o apoio a monoculturas para exportação e à formação de gigantes para disputar espaço no mercado global. Basta ver o volume de dinheiro público investido na formação da Brazil Foods, Ambev e JBS-Marfrig. Além disso, o governo destina R$ 16 bi para a agricultura familiar, que ocupa 9 vezes mais pessoal do que a patronal e produz cerca de 80% da nossa alimentação. Já o agronegócio, que responde por apenas 16% dos estabelecimento agropecuários do país, receberá este ano mais de R$ 107 bi via plano agrícola e pecuário.

Os avanços dizem respeito a políticas de valorização da produção familiar que vêm fomentando práticas agroecológicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Ambos vêm criando importantes mercados para a agricultura familiar, sendo que o da merenda determina que pelo menos 30% da alimentação servida nas escolas da rede pública venham da agricultura familiar da região, com preferência para alimentos orgânicos.

Caros Amigos – Acredita que a liberação do feijão transgênico abre precedentes para outras liberações de transgênicos?

Na verdade a porteira já foi aberta há mais tempo. Entre 2008 e 2011 foram liberados 29 tipos de sementes transgênicas, entre soja, milho e algodão, mais 10 vacinas de uso veterinário, uma levedura para produção de agrocombustível e testes com mosquito da dengue transgênico em bairros urbanos. A indústria investe mais em sementes transgênicas resistentes a agrotóxicos para fazer a venda casada. Entre 2003 e 2009, período de forte expansão da soja transgênica da Monsanto, resistente ao herbicida glifosato (“mata-mato”), o Brasil passou a usar 5 vezes mais esse produto, segundo a Anvisa. Em 2008 o Brasil passou a ser o país que mais usa agrotóxicos no mundo.

>> Leia também reportagem sobre a relação dos agrotóxicos, transgênicos e o novo modelo de agronegócio
Por último, a liberação do transgênico “verde e amarelo” é tida por alguns como uma grande conquista nacional. E a indústria vem usando o feito para renovar suas promessas. Na esteira da euforia gerada algumas normas importantes podem ser mudadas para pior. A tendência é que se amplie a abrangência do sigilo sobre os pedidos de liberação de transgênicos e que sejam desmanchadas as regras que preveem que os impactos dos transgênicos ao meio ambiente e à saúde sejam monitorados depois que esses produtos são liberados para produção e consumo em larga escala. Tanto é assim que o presidente da CTNBio já convocou as empresas do setor, chamadas por ele de “nossos usuários”, para discutir a reforma dessas regras. E para concluir, não custa lembrar que esta comissão é órgão integrante do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Feijão transgênico provoca divergência entre Consea e CTNBio

24, outubro, 2011 Sem comentários

Agência Brasil, 23/10/2011

Gilberto Costa

Brasília – O cultivo de alimentos transgênicos divide o governo e coloca em lados opostos o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), ligado à Presidência da República, e a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A liberação da venda do feijão GM Embrapa 5.1 expôs a divergência entre os dois órgãos.Em carta enviada à presidenta Dilma Rousseff durante o processo de liberação do feijão geneticamente modificado (Exposição de Motivos nº 009-2011, de 7 de julho), o presidente do Consea, Renato Sérgio Jamil Maluf, afirma que o Brasil “não tem respeitado o princípio da precaução, base fundamental da Agenda 21, em suas decisões referentes a temas de biossegurança”. Segundo Maluf, o Consea avalia que é preciso adequar as políticas de biossegurança aos preceitos da Conferência Rio 92 e avalia como “escassa” a análise genética e os estudos de campo em Goiás, Minas Gerais e no Paraná.

 

O presidente do conselho pediu a proibição da liberação do feijão transgênico e fez duras críticas à CTNBio, solicitando “especial atenção” de Dilma Rousseff às liberações comerciais do órgão. “Percebe-se que a referida comissão assumiu um caráter de entidade facilitadora das liberações de OGMs [organismos geneticamente modificados] no Brasil, em situação que rotineiramente contraria os votos e despreza argumentos apresentados pelos representantes da agricultura familiar, dos consumidores, dos ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário”.

 

A carta do Consea a Dilma fez com que o presidente da CTNBio, Edilson Paiva, enviasse ofício (nº 786, de 2 de agosto) ao ministro Aloizio Mercadante (Ciência, Tecnologia e Inovação) e criticasse o conselho pela visão “obscurantista”. Paiva ressalta que a CTNBio cumpre as regras internacionais, como a Codex Alimentarius da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e a legislação brasileira sobre biossegurança.

 

Edilson Paiva enfatiza o rigor das avaliações na CTNBio. Segundo ele, a liberação comercial do feijão geneticamente modificado (ainda em análise naquela época) se basearia em documentação “bastante robusta” (500 páginas), em testes de “toxicidade e alergenicidade”, que tiveram resultados negativos, e em parecer de especialista independente apresentado em audiência pública. O presidente da CTNBio enfatizou que a produção de OGMs pela Embrapa levou “uma dezena de anos” e envolveu “quase uma centena de pesquisadores”.

 

No ofício, Paiva ainda pergunta “qual a perda para os agricultores brasileiros se deixarmos que o vírus afete a produtividade do feijão? Como este prejuízo se compara com os alegados e não comprovados potenciais danos à saúde ou ao ambiente?”.O feijão transgênico foi liberado em 15 de setembro após controvérsia dentro do governo.

 

O assunto poderá voltar à discussão pública durante a 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que ocorrerá em Salvador (BA) entre 7 e 10 de novembro. Documento de referência para a preparação do evento aponta que “o agronegócio empresarial (…) expande um modelo frágil e insustentável que faz uso intensivo de agrotóxicos e sementes transgênicas, liberados por meio de processos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e repetidamente questionados pela sociedade civil. Esse pacote tecnológico faz do Brasil o maior mercado de agrotóxicos do mundo.

 

Os reflexos disso são manifestos nos registros de intoxicação de trabalhadores e na contaminação do solo, do ar (e consequentemente da água da chuva), das nascentes e dos aquíferos”.Na opinião do presidente da CTNBio, “o contraditório é bom”, mas a polêmica já se alonga por muito tempo. “São 16 anos em que se utilizam os mesmos argumentos, enquanto hoje no mundo se utilizam milhões e milhões de toneladas de grãos transgênicos na alimentação humana no mundo inteiro e até hoje não há único caso provado cientificamente de que isso possa ter causado qualquer mal”, reclama Edilson Paiva.A Agência Brasil entrou em contato com o Consea para entrevistar Renato Maluf, mas não obteve resposta.

 

A reportagem também tentou a entrevista por meio da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde Maluf é professor do Departamento de Desenvolvimento Agricultura e Sociedade, e não conseguiu retorno.

 

Edição: Lílian Beraldo

Feijão brasileiro esvazia críticas contra transgênicos, avalia pesquisador da Embrapa

24, outubro, 2011 Sem comentários

Agência Brasil, 23/10/2011

Gilberto Costa

Brasília – A liberação comercial da semente de feijão, do tipo carioquinha, geneticamente modificado e desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) esvaziou o discurso dos opositores aos transgênicos, opina o pesquisador da estatal Francisco Aragão.

“Durante muitos anos, as pessoas que são contra essa tecnologia sempre disseram que é uma tecnologia para grandes produtores, para commodities [produtos básicos de comercialização no mercado financeiro], e feita apenas por empresas multinacionais. O feijão mostra que não é isso, mas uma tecnologia para os programas de melhoramento, até para subsistência”, assinala Aragão.

O feijão GM Embrapa 5.1 é resistente ao vírus do mosaico dourado (transmitido por um inseto popularmente conhecido como mosca-branca), principal praga que ataca a cultura no Brasil e na América do Sul. Segundo o pesquisador, o organismo geneticamente modificado (OGM) “terá repercussão mais forte entre os pequenos produtores”, responsáveis por sete de cada dez grãos de feijão produzidos no Brasil e sem recursos para fazer o controle químico do vetor que transmite o vírus. Leia mais…

Para ciência e mercado, transgênicos são irreversíveis e estão chegando à segunda geração

24, outubro, 2011 Sem comentários

Agência Brasil, 23/10/2011

Gilberto Costa

Brasília – Passados mais de 30 anos da modificação da bactéria Escherichia coli para produção de insulina e 16 anos do anúncio da soja transgênica, o mercado e a ciência ampliam o uso dos organismos geneticamente modificado (OGMs) e avaliam que uma nova geração de transgênicos está surgindo.

A promessa da engenharia genética é a de que a tecnologia aumente o número de vacinas, enriqueça os alimentos e diminua o impacto ambiental no campo e nas cidades. Segundo a Sociedade Brasileira de Genética (SBG), com a transgenia é possível, por exemplo, fabricar sabão com bactérias geneticamente modificadas e ter um produto menos poluente que retira apenas a gordura da roupa sem desgastar o tecido.

Outro exemplo está na a indústria têxtil que agora com um algodão geneticamente modificado pode fabricar o jeans desbotado sem utilizar o ácido que provocava o efeito stonewashing, mas contaminava o meio ambiente. No Japão, cientistas estudam a aplicação dos genes das aranhas relativos à produção de teias em bichos-da-seda, para que a indústria possa fabricar meia-calça mais resistente e mais flexível.

Conquistas como essas fazem da transgenia “um processo irreversível”, segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner. Ele avalia que há uma demanda crescente nas lavouras por OGMs, o que tem possibilitado aumento de renda dos produtores. Em sua opinião, além do mercado, a sociedade se beneficia com a tecnologia. Segundo ele, a nova geração de alimentos transgênicos terá a adição de vitaminas, sais minerais e ômega 3.

Marcio de Castro Silva Filho, do Departamento de Genética da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), confirma que esses produtos devem chegar ao mercado até o final da década. Ele acredita que o barateamento da tecnologia alimenta o progresso. “Quem imaginaria que hoje está se determinando a sequência do genoma de uma espécie de planta com o custo na ordem de milhares de dólares, sendo que há poucos anos o custo era na casa de bilhões de dólares?”.

O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Francisco Aragão, um dos responsáveis pela primeira semente de feijão transgênico, acrescenta que “já há estudos de biossegurança para o desenvolvimento de espécies de feijão e de soja que necessitam de menos água no cultivo”. Segundo ele, também está em desenvolvimento uma espécie de alface enriquecida com ácido fólico, prescrito pelos médicos para o pré-natal para evitar a anemia.

Além desses produtos, o presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Edilson Paiva, lembra que já foram aprovados na comissão o uso do microrganismo que transforma a sacarose da cana-de-açúcar em biodesel e a alteração genética do Aedes aegypti para que o seu descendente não consiga se reproduzir. Ele vislumbra que a nova geração de transgênicos utilizará plantas para produzir hormônio de crescimento, fatores de coagulação e até antígenos contra o câncer.

“Nós estamos vendo somente a ponta do iceberg. Nós vamos ter que manter a mente e o coração abertos porque vamos ter que mudar vários conceitos e tabus que nós temos”, diz Paiva. Marcio de Castro Silva Filho, da Esalq, concorda e aponta que “houve um notável avanço tanto na descoberta de novas informações, como também no uso de instrumentos e desenvolvimento de equipamentos que permitiram uma série de possibilidades que eram inimagináveis em um cenário de 20 anos atrás”.

Segundo a CTNBio, 29 países plantam sementes transgênicas em uma área acumulada em 15 anos de 1 bilhão de hectares (maior que a China). No ano passado, a área plantada em todo mundo foi 150 milhões de hectares. As lavouras foram trabalhadas por 14,4 milhões de agricultores, nove de cada dez envolvidos eram agricultores familiares.

Edição: Lílian Beraldo

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Para ativistas, liberação de transgênicos ignora princípio da precaução e não há certeza sobre riscos

24, outubro, 2011 Sem comentários

Agência Brasil, 23/10/2011

Gilberto Costa
Brasília – A despeito do avanço tecnológico festejado pelo mercado e por parte da comunidade científica, os produtos transgênicos para consumo humano são vistos com ressalvas por ambientalistas e por ativistas da segurança alimentar. A avaliação é a de que não se conhecem todos os riscos e de que, na dúvida, deveria prevalecer o “princípio da precaução”.“A gente não é contra os transgênicos, mas contra a forma como estão sendo liberados: sem diagnósticos complementares. Faltam estudos independentes”, aponta José Maria Ferraz, ex-pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), e pesquisador do Laboratório de Engenharia Ecológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O site do Greenpeace, tradicional adversário da tecnologia, acrescenta que “não existe consenso na comunidade científica sobre a segurança dos transgênicos para a saúde humana e o meio ambiente”. Segundo a ONG, “testes de médio e longo prazo, em cobaias e em seres humanos, não são feitos, e geralmente são repudiados pelas empresas de transgênicos”.

Apesar das críticas, o Greenpeace abandonou a campanha contra os transgênicos. “A gente não tem perna para resolver tudo que é guerra na arena ambiental”, disse à Agência Brasil o ex-coordenador da campanha, Iran Magno, que não deixou a reportagem gravar a entrevista. Magno teme que o uso de sementes na lavoura possa gerar o desenvolvimento de “superervas” que exijam mais agrotóxico, e que o insumo possa fazer mal à saúde humana e ao meio ambiente.

Esse ponto é ressaltado também por Gabriel Bianconi Fernandes, da organização não governamental (ONG) especializada em segurança alimentar AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia. Segundo ele, já há, por exemplo, oito espécies de plantas daninhas resistentes ao glifosato (ingrediente ativo de herbicida usado em lavouras de um tipo de soja geneticamente modificada).

O presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Edilson Paiva, garante que as sementes transgênicas são “tão seguras quanto a versão convencional” e que a aprovação na comissão, conforme previsto em lei, é extremamente rigorosa e analisa “caso a caso”. “Aprovar um OGM [organismo geneticamente modificado] é extremamente difícil e extremamente caro por causa de tantas exigências que são feitas.”Ele lembra que o processo de liberação não é imediato e pode levar 12 anos. “Para começar a trabalhar com engenharia genética, tem que ter um certificado de qualidade e biossegurança da CTNBio. Isso no começo da pesquisa em condições de contenção, laboratório ou casa de vegetação. Depois vai ter que ter a liberação planejada no meio ambiente”. A autorização comercial só ocorre depois da avaliação dessas fases.

O coordenador admite que “existem controvérsias” sobre os transgênicos, mas argumenta que “há aqueles que querem viver sob risco zero, segurança absoluta e fomentam o medo e a incerteza. Isso faz parte da democracia. O tempo é o melhor juízo para dizer se a coisa é certa ou não”.

Edição: Lílian Beraldo

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