BOLETIM N. 07

 

Bem vindas e bem vindos à leitura do Boletim deste mês. Nesta edição você lerá sobre uma proposta de deputados do PT para intensificar a fiscalização sobre os plantios transgênicos, práticas comunitárias de conservação do milho crioulo na Paraíba e ainda as promessas furadas do arroz dourado. Apresentamos também dicas de leitura, além da sugestão de vídeos e áudios produzidos no Brasil e em outros países da América Latina. E tem mais.

Na matéria especial, contaremos sobre ação da Rede Sementes da Agroecologia (ReSA), do Paraná, que comprará de mulheres guardiãs da agrobiodiversidade sementes para distribuição para outras mulheres indígenas, quilombolas e acampadas. A ação envolverá 185 tipos de sementes crioulas, mudas, flores e plantas medicinais, que serão entregues a cerca de mil famílias em diferentes regiões do estado. Como explica uma das nossas entrevistadas, Luiza Damigo, da AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia, “essa estratégia potencializa a rede de comunicação entre as mulheres. Atuar em rede traz o sentimento de comunidade e isso é muito forte, pois potencializa um espaço de solidariedade”.

Mulheres Guardiãs da Agrobiodiversidade no Paraná: renda, sementes e solidariedade em tempos de pandemia


Foto: Hugo de Lima / Arquivo Asacom

A Rede Sementes da Agroecologia (ReSA), criada em 2015, no Paraná, envolve 25 organizações, dentre: movimentos sociais, sindicatos, cooperativas, ONGs e órgão públicos, além de professoras/es, estudantes, Guardiãs e Guardiões de sementes. Ela foi constituída e se desenvolve como espaço de troca de saberes, de articulação política e de ações voltadas à produção, à multiplicação e à preservação de sementes crioulas. A Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade do Centro-Sul do Paraná, organizada anualmente pelo Coletivo Triunfo e pela AS-PTA, é uma das mais significativas atividades do calendário da Rede. Essa feira mobiliza agricultoras, agricultores e organizações da agricultura familiar de toda a região e é antecedida por festas e feiras locais que acontecem nos municípios e comunidades. No ano passado, a 17ª edição da Feira Regional recebeu aproximadamente 4.000 visitantes vindos de 60 distintos municípios.

Em 2020, a pandemia da Covid-19 impossibilitou a realização desses espaços coletivos de comercialização e de troca de sementes e saberes, o que colocou o duplo desafio de construir alternativas de renda para as famílias que não puderam comercializar seus produtos nas Feiras, e, ao mesmo tempo, manter aceso os trabalhos coletivos com as sementes crioulas.

Ao longo dos últimos dois anos, a ReSA tem avaliado a necessidade de fortalecer a participação das mulheres guardiãs. Foi com esse objetivo que a Rede estruturou um projeto de compra de sementes crioulas produzidas pelas mulheres guardiãs, que reúne um grupo de 18 guardiãs de 10 comunidades e quatro regiões do Paraná. São no total mais de 4.800 pacotes de sementes e mais de 1.400 mudas de plantas medicinais, flores e árvores da Mata Atlântica. André Emílio Jantara e Luiza Damigo (AS-PTA e Coletivo Triunfo) e Naiara Bittencourt (Advogada da Terra de Direitos e integrante do GT Biodiversidade da Articulação Nacional de Agroecologia), todos integrantes da ReSA, nos ajudam a contar a história desse projeto.

Antes disso, dona Iraci, Maria Terezinha, Andrea e a jovem Maria Jaqueline, guardiãs de sementes crioulas participantes do projeto, têm um recado para nós! Vamos ouvi-las.

Em primeiro lugar, elas destacam a satisfação de saber que as sementes que cultivam com tanto carinho chegarão às mãos de muitas outras famílias, que estão precisando desse apoio nesse momento de pandemia. Andrea, agricultora urbana, ressalta a importância das feiras para a troca de sementes e a recuperação daquelas variedades que foram perdidas e também para conhecer novos tipos de grãos, hortaliças, flores, frutas e plantas medicinais. Maria Terezinha, que participa de um grupo de mulheres que já recuperou diferentes tipos de sementes, disse que sente o seu trabalho e o de suas companheiras reconhecido e valorizado com esse projeto. Iraci é agricultora assentada da reforma agrária em Santa Catarina, com produção bastante diversificada, de leite e derivados, sementes, morango e pequenos animais, tudo orgânico, além de artesanato e bordados. Iraci nos conta de sua alegria ao ver um projeto só para as mulheres guardiãs. Maria Jaqueline, guardiã mirim ligada ao Coletivo Triunfo, uma articulação regional da agricultura familiar, espera que, assim como ela recebeu dos pais a missão de cuidar das sementes, que mais e mais famílias também sigam nesse caminho, garantindo que as sementes continuarão a ser passadas de geração em geração: “Entregamos as sementes com muito amor e esperamos que as famílias possam receber essas sementes com muito amor e multiplicar cada vez mais”. Todas as guardiãs são unânimes em destacar a importância do projeto nesse ano em que as feiras de sementes não serão realizadas em decorrência da pandemia, em que até as visitas em casa diminuíram e estão todos mais isolados. Multiplicar as sementes e passá-las adiante é a forma de garantir que elas não serão perdidas. Como bem disse dona Iraci: “É vida que segue, é luta que continua”. Clique aqui para ler a entrevista completa.

Sementes crioulas na mídia

Fiscalização de sementes transgênicas

Parlamentares do PT pedem informações ao MAPA sobre fiscalização de sementes transgênicas. O pedido acontece em um cenário em que cresce a quantidade de variedades geneticamente modificadas liberadas para comercialização, assim como a área cultivada com Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) no Brasil. Essa situação é um permanente sinal de alerta para os casos crescentes de contaminação das sementes crioulas resgatadas e conservadas por gerações de agricultores/as, povos indígenas e outras comunidades tradicionais. Vamos acompanhar os desdobramentos dessa iniciativa!

Práticas comunitárias e proteção do milho crioulo na Paraíba

No ano de 2016 todas as variedades de milho armazenado no banco de sementes do assentamento Che Guevara em Casserengue, Paraíba atestaram contaminação por transgênicos. A contaminação do milho crioulo no assentamento acontecia, pois, embora houvesse um esforço de guardiãs/os e de famílias na conservação de variedade livres de transgênicos, havia na comunidade outras famílias que cultivavam transgênicos, levando à contaminação nas lavouras. Em 2019, as famílias envolvidas no banco decidiram realizar uma compra coletiva de sementes crioulas e distribuir, também, para as famílias não participantes do banco. Em 2020, a história já dá sinais de mudança. Os primeiros testes de transgenia realizados nas amostras de milho de oito famílias do assentamento deram todos os resultados isentos de contaminação.

Arroz transgênico e falácia alimentar

O arroz é uma das culturas centrais das relações sociais, da cultura e da economia dos países da Ásia. Países como as Filipinas, a Indonésia e a Índia são centros de origem de mais de 100.000 variedades de arroz. Apesar da enorme biodiversidade, manejada por milênios, circulam rumores de que será liberada, em novembro, em Bangladesh e nas Filipinas, a variedade transgênica de arroz, Golden Rice. Uma das justificativas é que esse arroz “dourado” geneticamente modificado conteria mais minerais e vitaminas, enfatizando sua importância no contexto da pandemia. A Rede Pare o Arroz Dourado, alerta que, ao contrário de alimentar, essa variedade fortalecerá o controle das corporações sobre o arroz e a agricultura e também colocará em risco a agrobiodiversidade e a saúde das pessoas. Para sabe mais, visite a Rede Pare o Arroz Dourado.

Ainda sobre pandemia e alimentação…

O blog O Joio e o Trigo, no seu Podcast Prato Cheio, traz para o debate a qualidade dos alimentos distribuídos pelo governo do estado de São Paulo para as populações carentes durante a crise sanitária, uma combinação de ultraprocessados e derivados de transgênicos produzidos por grandes corporações agroalimentares. O título do episódio é: “Pobre come qualquer coisa?

Recomendamos:

Conferir a animação “Transgénicos en el Cono Sur”, que complementa o Atlas del Agronegócio Transgénico en el Cono Sur, produzido pela Alianza Biodiversidad.

Conhecer a Ação Coletiva Comida de Verdade, um coletivo de 13 organizações que se propõe a mapear, identificar e dar visibilidade a experiências de abastecimento alimentar em tempos de pandemia.

Assistir aos depoimentos de guardiões/ãs das sementes por ocasião da Semana Continental de Semillas Nativas y Criollas, organizada pelo Maela Argentina

Aprofundar as leituras sobre gênero e alimentação, a partir da história do milho e da tortilla no México.

Viajar pelo Cerrado, sua gente e suas lutas com a série especial de artigos produzidos pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado: https://diplomatique.org.br/especial/os-saberes-dos-povos-do-cerrado-e-a-biodiversidade/

EXPEDIENTE

Sementes Crioulas é uma iniciativa da AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia

Edição e redação: Gabriel Bianconi Fernandes e Helena Rodrigues Lopes
Pesquisa: Helena Rodrigues Lopes e Gabriel Bianconi Fernandes
Produção: Adriana Galvão Freire
Revisão: Silvio Gomes de Almeida, Paulo Petersen e Luciano Silveira
Diagramação: ig+ Comunicação Integrada

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Confira as edições anteriores em: http://pratoslimpos.org.br/?cat=608