A produtividade da soja, assim como a de muitas outras culturas, há tempos passa por um processo de achatamento, ou seja, não apresenta mais saltos em resposta a melhoramento genético. É o que mostra o gráfico ao lado para as principais regiões produtoras da leguminosa nos Estadois Unidos. Mesmo assim, esta semana executivos da BASF foram aos jornais anunciar o lançamento de sua soja transgênica feita em parceria com a Embrapa e ao mesmo tempo alertar para o dato de que “a produtividade média das lavouras precisa dobrar nas próximas duas décadas”. O recado indica que os novos produtos da empresa permitiriam a façanha.

Mas o que na verdade deve mesmo crescer é a venda de agrotóxicos no país em função de sua “sinergia” com os transgênicos. Nas palavras do representante da empresa: “As vendas para o bloco [América Latina] devem crescer, em média, 5% nos próximos anos, ante um crescimento próximo de 1% a 2% das vendas para Europa e Estados Unidos”, estima. “Até o fim da década, a região deve responder por 30% a 32% do faturamento global da divisão [de agrotóxicos da BASF].”

Propaganda e promessas à parte, o que sobra mesmo é o velho e insustentável pacotão da revolução verde.

A seguir as reportagens publicados pelo Estado de São Paulo (03/05) e Valor Econômico (04/05).

segunda-feira, 3 de maio de 2010


Basf quer 20% do mercado de soja transgênica em 5 anos

GERSON FREITAS JR.  Agencia Estado



SÃO PAULO – A multinacional alemã Basf quer abocanhar pelo menos 20% do mercado brasileiro de soja transgênica nos próximos cinco anos. A afirmação foi feita hoje pelo vice-presidente da unidade de Proteção de Cultivos para a América Latina, Walter Dissinger, durante encontro de executivos da companhia com jornalistas em São Paulo.

A Basf lançou recentemente, em parceria com a Embrapa, sua primeira variedade geneticamente modificada de soja, batizada de Cultivance. O produto, que ainda carece de liberação na Europa e na China, começa a ser comercializado no País na temporada 2011/12. O gene desenvolvido pela multinacional oferece resistência a herbicidas.

Com o Cultivance, resultado de um investimento final de aproximadamente US$ 20 milhões, a Basf marca sua entrada no mercado global de plantas transgênicas. A intenção da empresa é expandir-se no segmento. “A transgenia é a resposta para os desafios que se colocam para a agricultura nos próximos anos”, afirmou Dissinger. Segundo ele, a produtividade média das lavouras precisa dobrar nas próximas duas décadas.

Até 2018, a Basf pretende lançar uma variedade de cana-de-açúcar geneticamente modificada capaz de assegurar um ganho de produtividade de 25% e tolerância à seca. A tecnologia está sendo desenvolvida em parceria com o Centro de Tecnologia Canavieira, com quem a multinacional firmou convênio no ano passado. A companhia possui ainda linhas de pesquisa com o objetivo de desenvolver variedades de soja e milho com maior produtividade e tolerância à seca.

A Divisão Global de Proteção de Cultivos da Basf faturou mais de 3,6 bilhões de euros em 2009, quase 7% em relação ao ano anterior. O bloco formado por América Latina, África e Oriente Médio respondeu por 23% da vendas – a companhia não abre os dados referentes ao Brasil, individualmente.

Dissinger afirmou que a América Latina vai puxar o crescimento da empresa nos próximos anos. “As vendas para o bloco devem crescer, em média, 5% nos próximos anos, ante um crescimento próximo de 1% a 2% das vendas para Europa e Estados Unidos”, estima. “Até o fim da década, a região deve responder por 30% a 32% do faturamento global dessa divisão.”

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VALOR ECONÔMICO

Basf prevê ganho de rendimento no Brasil

Alexandre Inacio, de São Paulo

A Basf aposta suas fichas no aumento da produção de grãos na América Latina, especialmente no Brasil, para sustentar o crescimento de sua divisão de defensivos agrícolas. No ano passado, a multinacional alemã registrou um faturamento global de € 3,64 bilhões em sua área de proteção de cultivos, 7% superior ao de 2008. Desse total, a América Latina foi responsável por € 838 milhões, abocanhando uma fatia de 23%. Em apenas um ano, a região adicionou € 69 milhões na receita mundial da companhia.

A expectativa é tão grande que a empresa projeta um aumento na produtividade de soja no Brasil dos mais expressivos, capaz de superar o rendimento das lavouras americanas. A produtividade da soja nos Estados Unidos está praticamente estável em 2.950 quilos por hectare, e a Basf estima que, nos próximos cinco anos, o Brasil deixará para trás os atuais 2.900 quilos por hectare para superar os americanos e se consolidar na liderança nesta frente.

A empresa não revela com que perspectiva de crescimento trabalha para a região nos próximos anos, mas, segundo Walter Dissinger, vice-presidente de proteção de cultivos da Basf para a América Latina, o avanço das vendas acontecerá não apenas com novos produtos, mas, principalmente em serviços. Nesse sentido, a Basf pretende iniciar em 2010 a criação da primeira biblioteca vegetal no Brasil e colocar à disposição de seus parceiros um equipamento para avaliar as condições ambientais e informar o melhor momento para a aplicação de defensivos.

Já nos transgênicos – mercado no qual entrou por meio do lançamento de uma soja geneticamente modificada em parceria com a Embrapa – a Basf pretende adotar uma estratégia diferente da de algumas de suas concorrentes, como a Monsanto. Enquanto a multinacional americana tem na venda de sementes mais da metade de seu faturamento, o conglomerado alemão pretende tocar o segmento de sementes transgênicas separadamente, como uma unidade de negócios diferenciada.

“Olhamos essa tendência em outras empresas, mas apenas para adotar estratégias diferenciadas. Tratamos os transgênicos como um negócio diferenciado, mas aproveitando as sinergias existentes com os defensivos. Nosso foco é a área de químicos”, afirma Markus Heldt, presidente global da divisão de proteção de cultivos da Basf.

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