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Sementes tradicionais alimentam semiárido

11, janeiro, 2017 Sem comentários

envolverde.com.br

Por Mario Osava, da IPS –  

Apodi, Brasil, 9/1/2017 – Em seus 76 anos de vida, Raimundo Pinheiro Melo suportou inúmeras estiagens prolongadas decorrentes das secas no Nordeste do Brasil. Ele se lembra de todas desde a de 1958. “A pior foi em 1982 e 1983, a única vez que secou o rio”, em cuja proximidade vive desde 1962. “Também foi muito ruim em 1993”, contou à IPS, porque ainda não existia o Bolsa Família nem a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), que contribuem para uma convivência menos traumática com secas como a atual, que já dura cinco anos.

Raimundo Pinheiro de Melo, um camponês de 76 anos do município de Apodi, no Nordeste do Brasil, mostra a um agricultor que o visita uma garrafa com sementes de feijões que mantém guardada. Foto: Mario Osava/ IPS

Por meio do Bolsa Família, o governo federal ajuda com dinheiro 13,8 milhões  de famílias pobres no Brasil, metade delas no Nordeste. A ASA é uma rede de três mil organizações sociais que promove a coleta de água de chuva, bem como técnicas e conhecimentos para uma vida rural adequada ao clima de chuvas irregulares na ecorregião do semiárido nordestino.

Para Mundinho, como Raimundo é conhecido por todos, e seus vizinhos, a água não é tão escassa devido à proximidade do rio Apodi, que, mesmo quando seca, ainda conserva água para ser extraída nas cacimbas, buracos feitos no leito do rio ou em sua margem. Além do esforço para conseguir água na zona alta onde vive, em uma área rural de Apodi, município do Rio Grande do Norte, ele se dedica a outra tarefa vital para a sustentabilidade do modo de vida camponês no interior semiárido do Nordeste, conhecido tradicionalmente como sertão.

Mundinho é um guardião de sementes crioulas, ou tradicionais. Armazena em garrafas e pequenos barris de plástico sementes de milho, feijões, sorgo, melancia e outras espécies de cultivo local, em uma pequena instalação construída ao lado de sua casa, em meio a uma terra atualmente arenosa e de vegetação seca. Mais de mil dessas casas, ou bancos de sementes, compõem, com a participação de 20 mil famílias, a rede organizada pela ASA para preservar o patrimônio genético e a diversidade dos cultivos adaptados ao clima e ao solo semiárido nordestino.

Guardar sementes é uma velha tradição camponesa, que foi deixada de lado durante a modernização agrícola na chamada revolução verde, iniciada na metade do século passado, e que incluiu uma “ofensiva das empresas produtoras de sementes que diziam ser melhoradas” e das quais os agricultores passaram a depender, recordou à IPS Antônio Gomes Barbosa, coordenador do Programa de Sementes Crioulas da ASA.

Sementes crioulas armazenadas em garrafas plásticas reutilizadas, em uma construção especial erguida em sua propriedade por Raimundo Pinheiro de Melo, um orgulhoso guardião dessas sementes, que colaboram para a segurança alimentar no semiárido do Nordeste brasileiro, em meio a uma seca que já dura mais de cinco anos Foto: Mario Osava/IPS

A estratégia adotada em 2007, de disseminar tecnologias para armazenar água para a produção, buscando a segurança alimentar, levou a ASA a visualizar a necessidade de os pequenos agricultores disporem sempre de sementes, explicou Barbosa, sociólogo de formação. Um estudo com 12.800 famílias revelou que o “semiárido tem a maior variedade de sementes de espécies alimentares e medicinais do Brasil”, destacando uma região em que vivem mais de 25 milhões dos 56 milhões de habitantes no Nordeste, em um país com população de 208 milhões de pessoas.

Barbosa acrescentou que para isso contribuíram a herança familiar e comunitária de sementes armazenadas e “um intenso intercâmbio, promovido por emigrantes que retornaram ao semiárido trazendo sementes de São Paulo e do centro-leste” do país, onde viveram. O que a ASA fez foi identificar os bancos de sementes existentes, articulá-las e promover sua multiplicação, como forma de resgatar, preservar, ampliar existências e distribuir as sementes crioulas, detalhou.

Antônia de Souza Oliveira, ou Antonieta, como é mais conhecida, participa do banco de sementes número 639 nos registros da ASA, na comunidade Milagre, com 28 famílias assentadas na meseta de Apodi, que é cortada pelo rio de mesmo nome. É um banco comunitário, que “conta com 17 guardiões e existências principalmente de sementes de milho, feijões e sorgo”, acrescentou.

Antônia de Souza Oliveira, em frente ao Banco de Sementes da comunidade rural Milagre, um assentamento de 28 famílias no Estado do Rio Grande do Norte, onde há 17 guardiões de sementes e que ficou famoso pelo protagonismo das mulheres nas atividades de coleta. Foto: Mario Osava/IPS

A forte presença feminina nas atividades desse assentamento levou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) a escolher Milagre para inaugurar uma linha de crédito para mulheres do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Um caso exemplar, destacado pela ASA, é o banco de sementes de Tabuleiro Grande, outro assentamento rural de Apodi. Ali, uma iniciativa familiar acumula sementes de 450 variedades de milho, feijões, outras leguminosas e ervas. Antônio Rodrigues do Rosário, de 59 anos, encabeça a quarta geração que mantém esse “banco familiar”.

O movimento de sementes crioulas se contrapõe à lógica da revolução verde, em que as sementes são distribuídas pelo Estado ou vendidas por grandes empresas especializadas, “em grande quantidade, mas pouca variedade”, e a partir de uma produção central. “Não precisamos dessa distribuição, mas de iniciativas locais, com cada território resgatando suas sementes locais, com grande diversidade e disseminação”, pontuou Barbosa.

Trata-se de conhecimento acumulado pelas famílias, com experiências de adaptação a cada localidade, solo e clima, ao tipo de produção desejada e à resistência às pragas. Barbosa observou que, por exemplo, “muitas variedades de milho atendem a diferentes necessidades, uma pode produzir mais palha para alimentar os animais, outra o grão para os humanos”. E acrescentou que “o quintal das casas é um laboratório familiar, onde são feitos experimentos, melhorias genéticas, testadas resistência e produtividade. É onde a mulher mais participa, inclusive ensinando os filhos”.

“Na grande seca de 1982 e 1983, uma variedade de batata de crescimento rápido, que em 60 dias foi reproduzida e guardada por uma avó, salvou muitas vidas”, apontou Barbosa. A permuta de materiais e conhecimentos também faz parte importante da história das sementes crioulas. Ocorre dentro da própria comunidade e nas relações com o exterior. A ASA procura intensificar esse intercâmbio promovendo contatos entre camponeses de diferentes áreas.

Antônio Gomes Barbosa, coordenador do Programa de Sementes Crioulas do movimento Articulação Semiárido Brasileiro, que aglutina mais de três mil organizações. A iniciativa é essencial para a segurança alimentar e a biodiversidade do Nordeste brasileiro, principalmente durante a longa seca que afeta a região. Foto: Mario Osava/IPS

“As sementes crioulas são o principal foco de resistência às imposições do mercado. Trata-se de superar a dependência em relação aos grandes fornecedores”, afirmou o coordenador do setor da ASA. A mudança climática aumenta a importância das sementes do semiárido. “Não há veneno agrícola para combater o aumento da temperatura”, ironizou.

O Programa de Sementes do Semiárido comprovou uma “grande capacidade criativa e de experimentação” dos agricultores familiares do Nordeste, ressaltou Barbosa em um diálogo com a IPS, no município próximo de Mossoró. Além disso, existe a tendência à autonomia. “O agricultor segue sua própria experiência, mais do que a orientação do agrônomo, porque escolhe o que é mais seguro para ele”.

Porém, duas ameaças preocupam o movimento referente às sementes da ASA. Uma é a “erosão genética”, que pode ser provocada pela atual seca, que em algumas áreas já dura sete anos. As chuvas isoladas induzem os camponeses a plantar. Sabendo da possibilidade de perder a colheita, nunca usam todas as sementes, mas as vai perdendo pouco a pouco, diante de cada chuva enganosa, com o risco de reduzir suas existências.

Outra ameaça são os transgênicos, rejeitados pelos agricultores vinculados à ASA. Foi comprovada a presença de milho geneticamente modificado em algumas plantações do Estado da Paraíba, que se suspeita ocorre devido ao contágio de sementes trazidas de outras regiões. (#Envolverde/IPS)

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Produção diversificada e acesso a políticas públicas garantem autonomia para famílias agricultoras, revela estudo

3, outubro, 2016 Sem comentários

ASA, 30/09/2016

Por Elka Macedo – Asacom

 

Os quintais produtivos contribuem para a resiliência das famílias agricultoras no Semiárido | Foto: Fred Jordão

A poucos meses da finalização, a pesquisa Sistemas Agrícolas Familiares Resilientes a Eventos Ambientais Extremos no Contexto do Semiárido Brasileiro: alternativas para enfrentamento aos processos de desertificação e mudanças climáticas, realizada pelo Instituto Nacional do Semiárido (INSA) em parceria com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) revelará aspectos relevantes das características e sustentabilidade de agroecossistemas diversificados e especializados de dez territórios do Semiárido.

Iniciada a cerca de três anos, o estudo está sendo desenvolvido em territórios específicos nos estados da Bahia, Piauí, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe. Aproximadamente, 50 famílias agricultoras participam da pesquisa que analisa aspectos econômicos, sociais e ecológicos das experiências, a fim de apontar a viabilidade dos diversos modos de produção, sobretudo, no período de estiagem que já se estende na região por mais de cinco anos.

“Essa pesquisa tem um lugar diferente quando eu olho para a história do Semiárido. Então, como é que a gente olha para este período de seca e para a forma como os agricultores vão construindo alternativas, sobretudo na perspectiva da resiliência. Nós sabemos que agricultores/as que têm água de beber e que têm água de produzir vivem melhor do que outros agricultores, então a nossa ideia não é comparar. A intenção é entender as famílias que têm um conjunto de inovações e, qual a importância do conjunto de estratégias de estoque dessas famílias”, explica o Coordenador do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da ASA, Antônio Barbosa.

Na perspectiva de visualizar caminhos para estas questões, foi realizada nos dias 27 e 28 deste mês, na sede do INSA em Campina Grande-PB, a “oficina de restituição final dos estudos de caso”. O evento reuniu membros de organizações parceiras que se envolveram diretamente nos estudos, no intuito de fazer uma releitura da pesquisa por meio da apresentação dos dados já apurados pelos pesquisadores. As informações foram captadas por meio de ferramentas metodológicas como a linha do tempo, modelização de agroecossistemas, gráficos econômicos e gráficos de atributos, que revelam informações sobre renda, divisão de tarefas, canais de comercialização, áreas de preservação, estoque e outras que demonstram a autonomia dos sistemas produtivos.

Para a bolsista pesquisadora, Roselma Viana que acompanhou o estudo no território do Apodi (RN) “a pesquisa traz diversos resultados, dentre eles destaco a visibilidade da importância do papel da mulher dentro da unidade familiar, da comunidade e do território e a importância das tecnologias sociais para famílias, que além de garantir a segurança hídrica possibilita o aumento da produção ou até mesmo mantê-la durante estiagens prolongadas. Essa é uma metodologia diferenciada, pois prioriza uma pesquisa participativa com base nos diálogos e nas experiências implementadas nos agroecossistemas, além de uma sistematização das estratégias agrícolas e sociais adotadas pelas famílias pesquisadas”, disse.

Embora parta das experiências, a pesquisa tem um papel importante na percepção e análise das transformações sociais nos territórios em que as famílias estão inseridas como salienta a coordenadora da ASA pelo estado da Paraíba, Glória Araújo. “É importante olhar para o território porque é lá que as coisas ocorrem, este é também um lugar de construção do projeto político e sociorganizativo das famílias na perspectiva da convivência e da agroecologia. Não se promove agroecologia e desenvolvimento territorial só dentro do agroecossistema. Neste contexto, o fortalecimento das redes são elementos para a construção de uma nova perspectiva de agricultura e, portanto, a gente tem que sistematizar porque isso serve também para o próprio processo de formação das organizações de agricultores/as”.

Nos dados apresentados durante a oficina é possível perceber e comparar a transformação na vida das famílias agricultoras após o acesso a políticas públicas estruturantes de à água para beber e produzir, crédito, mercados institucionais (PAA e PNAE) e da participação em espaços coletivos de discussão de políticas, a exemplo das associações, grupos, sindicatos e articulações.

Luciano Silveira destaca como a agricultura familiar se desenvolveu nos últimos anos | Foto: Elka Macedo

“A agricultura familiar além de ser majoritária ela é dona de seus meios de produção, ou seja, a terra está nas mãos dos agricultores, mas tem um novo desafio hoje que é a pressão sobre o espaço produtivo porque muitas dessas terras foram partilhadas por herança e você tem um processo de minifundização. A gente vive uma crise agrária e a degradação é enorme. No entanto, nesses últimos 20 anos há um conjunto importante de politicas novas, dirigidas à valorização da agricultura familiar e segurança alimentar que emergem nesse período e que têm uma influencia nas transformações que vivemos no Semiárido”, salienta Luciano Silveira da AS-PTA.

O desfecho do estudo está previsto para novembro deste ano e a apresentação dos resultados finais deve ser feita durante um seminário no primeiro semestre de 2017. Para dar visibilidade ao conteúdo, membros do INSA e da ASA e pesquisadores envolvidos na ação estão se organizando para apresentar a pesquisa em congressos, fóruns e outros eventos, a exemplo da nona edição do Encontro Nacional da ASA (Enconasa), que acontece de 21 a 25 de novembro deste ano em Mossoró-RN.

“A gente tem uma amostra poderosa dos efeitos que geram nos territórios o projeto da convivência com o semiárido. Nós temos condições de gerar demonstrações importantes da viabilidade da convivência e do impacto que isso gera concretamente na vida das famílias. Nosso desafio agora é como a gente dá esse desfecho na pesquisa e em que espaços a gente vai comunicar os efeitos que a pesquisa está demonstrando numa rede gigantesca de organizações que estão atuando no território do Semiárido”, ressalta Gabriel Fernandes, da AS-PTA.

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A revolução das sementes no semiárido brasileiro

22, junho, 2016 Sem comentários
Banco Comunitário de Sementes em Vitória da Consquista, BA |foto: AS-PTA

Guardiã de sementes em Banco Comunitário do Programa Sementes do Semiárido, Vitória da Conquista, BA | foto: AS-PTA

por Najar Tubino

CARTA MAIOR, 21/06/2016

Aracaju (SE) – Essa estratégia faz parte da lógica de resistência histórica que a ASA organizou nos nove estados do nordeste e o norte de Minas. Uma política pública bancada pelo BNDES e pelos ministérios do desenvolvimento social e combate à fome e o do desenvolvimento agrário. Resultado: 640 bancos de sementes. O maior projeto de sementes crioulas do mundo – o outro reconhecido de Vandana Shiva, na Índia, tem pouco mais de 200 bancos. E que está ameaçado, não pela estratégia em si, porque os agricultores e agricultoras do semiárido guardam sementes há séculos. Mas porque haveria um salto muito maior: mais mil bancos de sementes.

As corporações multinacionais odeiam as sementes crioulas. Elas são o maior exemplo da incompetência dos cientistas das multis em querer produzir sementes de laboratório com penduricalhos químicos, genes e veneno. O semiárido brasileiro é o mais populoso do mundo, aliás, é o bioma brasileiro com maior população – entre 22 e 25 milhões de pessoas. No IV Encontro de Agricultoras e Agricultores Experimentadores a ASA lançou uma cartilha sobre sementes crioulas. É o resultado de um amplo projeto de pesquisa realizado em 240 municípios, 24 territórios e 12 mil famílias.

A lógica histórica do estoque

Antonio Gomes Barbosa é o coordenador do programa de sementes da ASA, além de coordenar o projeto P1M2, também chamado de Uma Terra e Duas Águas, cujo destino final é a produção de alimentos e as criações de animais. A ASA assessora 90 mil famílias de um total de 130 mil que já foram beneficiadas com este programa. Barbosa é um apaixonado por sementes. Em uma conversa de uma hora ele é capaz de fazer o histórico da evolução da humanidade contada através da evolução genética das sementes. É a teoria do estoque. Uma garrafa PET, hoje em dia, usada para estocar sementes do povo do semiárido, guarda a evolução da agricultura. E os agricultores e agricultoras sabem como dosar isso no plantio, mesmo que a cada década ocorra uma seca e a cada 30 anos uma seca de quatro a cinco anos – ainda estamos vivendo uma seca no semiárido, que é a maior da história do Brasil.  

Depois de quase 20 anos de trabalho a ASA está reencontrando com sua lógica histórica – o estoque de comida, tanto para humanos como para os animais. No semiárido o povo nunca usa todas as sementes da garrafa PET. No primeiro plantio pegam 80% das sementes. Se o inverno falhar – quando a chuva não chega – eles ainda arriscam mais 15% na próxima temporada. Cinco por cento é a garantia da produção futura.

A ideia é a autossuficiência

Semente crioula não é apenas o material genético que o povo do semiárido manuseou por séculos. É a tradução do conhecimento acumulado, um conceito que os burocratas da academia teimam em não reconhecer. Muitas vezes, porque muitos deles trabalham para as corporações que ao longo da história rouba este conhecimento e usa o material genético para produzir os seus frankesteins de laboratório, como são os transgênicos. Como diz Antônio Barbosa, a questão da semente crioula não tem nada a ver com romantismo, é que questão de valor, de competição comercial. A política pública, envolvida com a ampliação dos bancos de sementes crioulas, prevê que as famílias possam comercializar as sementes. Um banco de semente recolhe o produto de 20 famílias. Cada município têm três bancos e eles poderiam suprir a necessidade de sementes dos agricultores e agricultoras neste raio de ação. A ideia é a autossuficiência para cada município.

Muita contaminação nos testes de transgenia

O trabalho da ASA de pesquisa encontrou mais de 400 variedades de sementes de milho – a mais ameaça na atualidade -, mais de 300 variedades de feijão de corda e por aí vai. Também realizaram testes de transgenia nas sementes crioulas, para avaliar a contaminação com as sementes transgênicas das corporações. E encontraram muita contaminação, inclusive no Polo da Borborema, na Paraíba, considerado um santuário de sementes.

A estratégia das multinacionais é contaminar as crioulas. Existe também germoplasma guardado na Embrapa que agora as organizações sociais querem aproveitar. A EMBRAPA precisa abrir a caixa preta, porque ninguém sabe o que tem estocado de semente crioula. Além disso, quem vai pagar o prejuízo pela contaminação das crioulas com os transgênicos da Monsanto, Syngenta, Bayer e companhia limitada. Enquanto isso, o povo do semiárido continua fazendo os seus estoques de sementes, trocando em feiras, como o correu em Aracaju, e divulgando o seu conhecimento. Um dos participantes do IV Encontro Nacional é o seu Golinha, Antônio Rodrigues do Rosário, 60 anos, viúvo, dois filhos, três netos, assentado no Tabuleiro Grande, em Apodi (RN).

Um país novo

Conheci Golinha em Juazeiro (BA) no III ENA. É o sujeito que mais sabe vender sementes crioulas – além de ervas medicinais – na barraca do RN, no evento. Em volta dele sempre tem um grupo de pessoas escutando as explicações, as receitas e comprando. Apelidei ele de Senhor Semente. Golinha é um perigo para a Monsanto. Ele bota qualquer diretor de marketing de multinacional no chinelo. É impressionante o conhecimento da família, que começou com o bisavô – morreu com 104 anos -, continuou com o avô que morreu aos 99 e seguiu com o pai, morto aos 99. São 361 anos da Sementes da Tradição, que é a marca do assentado do Apodi.

No IV Encontro de Agricultoras e Agricultores Experimentadores o refrão de uma musica popular era entoado seguidamente. Diz assim:

“- Esse encontro é nosso / esse encontro é do povo / com o semiárido / nós fazemos um país novo”.

  
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Articulação do Semiárido – Paraíba

21, junho, 2016 Sem comentários

ASA_PB

Governo [ilegítimo] Temer quer apagar Agricultura Familiar e Reforma Agrária das pautas centrais para o País

2, junho, 2016 Sem comentários

O que quer um governo que desconsidera o setor da sociedade que alimenta o país?

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ASA, 01/06/2016

Por Amanda Sampaio (Comunicadora do Cetra) e Elka Macedo (Asacom)

 

foto: Ana Lira

Na edição do Diário Oficial da União (DOU), do dia 13 de maio deste ano, foi publicada a medida do Governo interino de Michel Temer que elimina nove Ministérios, entre eles, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), trazendo muita indignação e resistência de milhões de brasileiros e brasileiras. São quatro milhões de famílias agricultoras, aproximadamente 16 milhões de pessoas, que perdem a mínima garantia da visibilidade das pautas camponesas.

Para a Coordenadora Executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo estado do Ceará, Cristina Nascimento, que está participando nessa semana da 2ª Conferência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma Agrária (2ª CNATER), em Brasília, a extinção do MDA representa um profundo retrocesso de direitos. “É a prova real do descaso do Governo interino com o povo brasileiro. O mundo rural, da agricultura familiar, não faz parte da lógica do agronegócio e da burguesia. É retrocesso e também mostra a lógica excludente de um governo impopular. Somos contra a destruição dos direitos conquistados. Resistiremos na rua sempre. A Conferência de ATER já inicia dando o recado que não reconhecemos esse Governo e iremos às ruas nos manifestar pelo fim do Governo golpista e por nenhum direito a menos”, afirmou.

As ações do extinto MDA, e do também extinto Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), foram transferidas e fundidas para o recém-criado Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário pelo governo interino de Michel Temer. E as decisões, que representam retrocessos dos direitos conquistados pelas famílias agricultoras do Brasil, não param por aí. No último dia 30 de maio, o Governo em exercício anunciou a transferência de cinco secretarias, ligadas anteriormente ao extinto MDA, para a Casa Civil. Atualmente sob administração de Eliseu Padilha (PMDB), a Casa Civil agrega as seguintes Secretarias: Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário, Secretaria de Reordenamento Agrário, Secretaria da Agricultura Familiar, Secretaria de Desenvolvimento Territorial e Secretaria Extraordinária de Regularização Fundiária na Amazônia Legal. Além dessas pastas, a Casa Civil ainda passa a responder pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Com essas recentes decisões, temas como reforma agrária, agroecologia e convivência com o Semiárido passam a ser também minimizados no cenário nacional. Outra política que está gravemente comprometida é a de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) voltada especificamente para as famílias da agricultura familiar. Para o agricultor José de Oliveira Mesquita, do assentamento Lagoa do Norte, em Nova Russas (CE), as consequências reais da extinção do MDA para o povo camponês serão muito graves.

“A consequência pra agricultura familiar é a queda da produção nos quintais produtivos, que vinham produzindo numa escala boa para alimentação, e do avanço que vinha se tendo na agroecologia. Vai ter todo esse retrocesso porque muitos agricultores vinham entrando nesse ritmo, conhecendo mais o que é a agroecologia, entendendo a concepção e a necessidade que se tem de produzir sem agrotóxicos, sem queimar, sem degradação da terra. Tudo isso agora retroage. As pessoas entraram em um barco e quando elas começaram a aprender a manejar o barco, o orientador tá indo embora. A consequência que se pode trazer é um naufrágio total da agricultura familiar. Voltar aos atrasos”, afirma o agricultor.


A Secretária de Mulheres da Contag, Alessandra Lunas ressalta os retrocessos causados pela extinção do MDA, sobretudo para as camponesas | Foto: Divulgação/internet

As mulheres camponesas são ainda mais impactadas pela extinção do Ministério, como destaca a Secretária de Mulheres da Confederação Nacional dos Agricultores na Agricultura (Contag), Alessandra Lunas. “Para nós mulheres agricultoras, o fim do MDA significa um retrocesso imenso, pois este era um Ministério com o qual dialogávamos e que avançava. Eles ouviam o que as Margaridas [referindo-se às mulheres da Marcha das Margaridas] tinham a dizer e a gente tinha espaço para cobrar políticas públicas para mulheres, a exemplo da Ater voltada para as mulheres. Esta é uma perda inadmissível e revela a face do governo golpista que não defende os direitos da população. Portanto, nós continuaremos lutando pela volta da presidente Dilma para que continuemos a avançar e não haja mais retrocessos”, afirma.

Lunas falou ainda sobre como este assunto está sendo pautado na 2ª CNATER, que teve início nesta terça-feira, 31, e acontece sob a gestão da sociedade civil. “A Conferência é um marco de resistência. Sem o MDA, ela está sendo gerida pelo Condraf [Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável] para assegurar a sua realização. Esta e outras conferências são o retrato da democracia participativa do país e o resultado que esperamos deste momento é que os encaminhamentos sejam instrumento de luta para a gente seguir avançando”.

Cartas e manifestos – Após anunciado o fim do MDA, muitas organizações e pessoas se manifestaram com notas, artigos e cartas de repúdio à decisão. A mais recente deve ser publicada ainda hoje, 1º de junho, pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), durante a 2ª CNATER. O Manifesto da ANA salienta o quanto a extinção do MDA interfere nas conquistas das famílias agricultoras, como destacado no trecho abaixo.

“O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), criado ainda no Governo Fernando Henrique Cardoso, exerce um papel fundamental na interlocução com a sociedade civil para aprimorar essas políticas, bem como para implementá-las a partir dos Planos Safra da Agricultura Familiar. A extinção do MDA, anunciada logo após o afastamento da Presidenta Dilma, mostra o desrespeito do Governo ilegítimo com este enorme contingente, e também um desconhecimento da importância da agricultura familiar para a segurança alimentar e nutricional do país. Lutaremos para a reversão dessa medida.”

Em carta enviada, em 23 de fevereiro deste ano, ao então Ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, a Articulação já se mostrava preocupada com os rumos da execução de políticas públicas voltadas à agricultura familiar.  “Para a ANA, é motivo de enorme preocupação cortes de recursos em políticas públicas direcionadas à reforma agrária, à agricultura familiar, às mulheres e à juventude rural, aos povos indígenas e aos povos e comunidades tradicionais, como os que vimos em 2015. Políticas garantidoras de direitos precisam ser priorizadas e ampliadas e isso se expressa em primeiro lugar pela dotação orçamentária a elas alocada.”

A extinção do Ministério põe em xeque as possibilidades de ações que beneficiem a classe camponesa. O ex-ministro do Desenvolvimento Agrário do governo Lula, Guilherme Cassel, traz essa preocupação em artigo intitulado Extinção Do MDA – Crueldade e Crime Premeditado publicado em seu perfil na rede social Facebook no último dia 16 de maio. Em um dos trechos do artigo ele explica porque esta atitude do Governo interino é considerada por ele um “crime premeditado”.

“Tanto o MDS como o MDA têm estruturas enxutas, aquém das suas necessidades reais e trabalham com um enorme universo de pessoas e demandas: o Bolsa Família atende 13,8 milhões de famílias e o MDA é responsável pela gestão do crédito, do seguro agrícola, da assistência técnica e da comercialização, de mais de quatro milhões de famílias de Agricultores Familiares e de Assentados da Reforma Agrária. Nos dois casos, o volume de trabalho e a especialização necessária para bem realizá-lo justificam a existência dos dois ministérios. Simples assim. Autoexplicativo. Reunir tudo isso em uma só pasta é apostar no fracasso e no desmantelamento das estruturas e programas no curto e no médio prazo”.

 

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Seed banks and national policy in Brazil

23, maio, 2016 Sem comentários

Farming Matters | Special issue on Access and Benefit Sharing

Written by Paulo Petersen , Gabriel Fernandes , Luciano Silveira , Emanoel Dias da Silva — last modified May 03, 2016 11:27 AM

Increasingly, seeds are the domain of professional breeders, agribusiness and policy makers. They decide what makes for a good variety and they develop legislation that excludes other varieties. Despite this, farmer organisations and social movements in Paraíba, Brazil, have managed to strengthen decentralised farmer-driven seed selection and distribution systems and public seed policies. They may well be opening the way for another seed regime in the country, with its own access and benefit sharing mechanisms.

O grito de luta das mulheres do semiárido

21, março, 2016 Sem comentários

CARTA MAIOR, 09/03/2016

por Najar Tubino

Cinco mil mulheres agricultoras protestaram por uma sociedade mais justa, contra a tentativa de golpe das elites brasileiras e pela agroecologia

Areial (PB) – Cinco mil mulheres agricultoras se reuniram ontem hoje nesta pequena cidade de sete mil habitantes, onde o solo é uma areia branca, para protestar contra a violência, a impunidade, por uma sociedade mais justa, contra a tentativa de golpe das elites brasileiras e pela agroecologia. Essa é a VII Marcha pela Vida e pela Agroecologia, novamente ocorrendo num momento político tenso. No ano passado, a prefeitura que apoiava o evento ameaçou retirar o apoio na última hora, porque a Marcha ocorreu no dia 12 de março, após as demonstrações de ódio explícito na Avenida Paulista. Mas não é um simples acontecimento, embora a prefeitura de Areial tenha decretado feriado. Trata-se de uma demonstração de força e poder de mulheres que antes buscavam água barrenta por quilômetros, com uma lata na cabeça.

Eram destratadas pelos governantes e muitas vezes pelos próprios companheiros. A Paraíba está na sexta posição no Mapa da Violência e João Pessoa está em terceiro lugar entre as capitais mais violentas. Nos últimos 10 anos, 43 mil mulheres foram assassinadas no Brasil. No ano passado foram 50 na Paraíba. No último fim de semana, outras duas foram mortas. A Marcha tem dois momentos: um de denúncia, outro de afirmação. A concentração iniciou na zona rural, no sítio Areial II, em um campo de futebol. Setenta ônibus trouxeram comitivas de outros municípios, dos 14 que compõem o Polo da Borborema.

Cinco mulheres comandam os sindicatos

Uma região com tradição de luta camponesa, onde Margarida Alves foi assassinada por um tiro de escopeta 12 na década de 1980, depois de ser a primeira presidenta de um sindicato de trabalhadores e trabalhadoras rurais – no município de Alagoa Grande. Hoje, cinco mulheres comandam os sindicatos. Porém, o Polo é muito mais do que isso. São mais de 150 associações de comunidades do campo, onde já foram instaladas quase 10 mil cisternas de placa e 1600 cisternas de produção. Trabalho organizado pela ASA, pela organização social AS-PTA, que está presente na Paraíba há 20 anos, pelo Coletivo Estadual de Mulheres do Campo e da Cidade e por vários outros movimentos. Um trecho da convocação:

“- Em nome de Ana Alice, jovem agricultora militante do Polo, brutalmente violentada e assassinada em 2012 e de milhares de mulheres que todos os dias são vítimas de violência, cobramos o fim da impunidade dos crimes contra a mulher. Afirmamos que as desigualdades entre homens e mulheres e a violência constituem um forte bloqueio para que a agricultura familiar se consolide como modo de produção e de vida para as famílias agricultoras do território da Borborema”.

Uma rainha afrodescendente

Em volta do campo de futebol algumas tendas, dois carros de som. No palco as apresentadoras vão ensaiando os gritos de luta, as músicas da marcha e a ciranda, que logo depois Lia de Itamaracá, uma afrodescendente de 72 anos, que já percorreu o mundo cantando irá embalar. Lia é alta, esguia, descendente de africanos da Guiné Bissau, do povo Djola. Veste um vestido branco, bordado com uma fita azul, parece uma rainha e tem uma voz firme e forte, como de Benedita de Jesus.

Os grupos de mulheres, crianças, idosos, homens chegam a pé, caminhando pela areia com cartazes, faixas, camisetas da marcha. O sol está quente, mas o planalto da Borborema sempre alivia o calor com um vento, às vezes, fresco. ”Somos Lula e Dilma”, diz o cartaz da Juventude de Remígio. Não vai ter golpe está em vários cartazes. O clima é emocionante, a cada fala, uma canção.

“- Pra mudar a sociedade/do jeito que a gente quer/participando sem medo de ser mulher/ porque a luta/não é só dos companheiros…pois sem mulher/ a luta vai pela metade/na aliança operário e camponesa/participando sem medo de ser mulher/pois a vitória vai ser nossa com certeza/participando sem medo de ser mulher.”

Quando a gente luta sempre consegue

Roselita Vitor da Costa, de Remígio é uma das coordenadoras do Polo da Borborema. Para ela, a Marcha das Mulheres é a maior expressão do movimento feminino na Paraíba, talvez do Brasil. As mudanças na maneira de produzir, a responsabilidade de assumir as tarefas ao redor de casa, os ensinamentos da agroecologia, o acesso à água de beber e de produzir, a implantação das políticas públicas que apoiaram a agricultura familiar tudo isso se expressa em maior participação política e social. Roselita cita a rede de 1300 agricultoras experimentadoras, da produção comercializada em 10 feiras agroecológicas no Polo, na melhoria da renda. Enfim, conseguiram um novo papel para a agricultora camponesa, com força e valorização.

É o que diz outra agricultora, Ligória, dando um testemunho no palco:

“- Eu planto, colho, trabalho na construção civil como ajudante de pedreiro e não tenho medo de enfrentar a luta, porque quando a gente luta, consegue. Vou continuar marchando”.

Agronegócio sempre ameaçando

Zeneide Balbino é a presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Areial, também promotor da Marcha.

“- Nós precisamos valorizar o que nós temos no Polo – as nossas sementes crioulas, sementes da paixão, as galinhas capoeiras. Porque já tem empresas querendo trazer raças de fora, que precisam de ração, de milho transgênico. Temos que defender o nosso projeto de agroecologia, que está sendo ameaçado pelo agronegócio”.

São 82 bancos de sementes na região. O agronegócio já tentou de várias maneiras desestruturar a agricultura familiar, desde incentivar o plantio de tabaco até varrer as plantações de cítricos, que estão localizadas na área do território chamada de brejo úmido, com inseticidas e fungicidas, quando sofreram um ataque da mosca preta. Foram bloqueados pelas associações e sindicatos. Mesmo assim, grande parte do Polo ainda é ocupada por grandes fazendas de pecuária ou de cana – 254 ocupam 43,6% da área, enquanto 8.842 estabelecimentos apenas 3,2% da área. Na definição do Ministério do Desenvolvimento Agrário o Território da Borborema é composto por 21 municípios e conta com 21 mil estabelecimentos da agricultura familiar, que ocupam área entre 2 e 10 hectares.

No teatro o homem vive o pesadelo de ser mulher

Nailde de Lima é separada, têm dois filhos, o ex-marido está em São Paulo. A separação ocorreu por sucessivos abusos violentos. Mas ela não consegue assumir a terra que plantava quando era casada no assentamento Veloso, onde vivem 31 famílias, em Casserengue. Lá, Maria Celina é a presidenta do Sindicato. E vieram para a Marcha em quatro ônibus. Leônia Soares, de Maçaranduba comenta que o machismo ainda é muito presente no meio sindical e que as mulheres precisam assumir esses espaços de poder para valorizar o trabalho das agricultoras, que sempre são sobrecarregadas com as atividades domésticas, de cuidados dos filhos, além do trabalho no quintal e no roçado.

A Marcha deveria sair do Sítio Areial II às 10 horas. Já são quase 10h30min e ainda rola uma peça de teatro no palco. O agricultor Biu está sonhando que assume o papel da mulher, enquanto ela desfruta das delícias de ser o dono da casa – pega o dinheiro ganho na venda das galinhas e vai descansar um pouco a cabeça no bar. Daí ele acorda, e sente que viveu um pesadelo. E as mulheres em coro: esse é o nosso dia a dia. Um pesadelo.

Nunca olharam para as pessoas mais pobres

Roselita Vitor da Costa promove o último diálogo com as mulheres: quem já passou fome e sede aqui presente. A maioria levanta as mãos. Quem já teve que ir buscar água barrenta com lata na cabeça. A maioria responde sim. Quem tem cisterna de água para beber? Praticamente todas levantam as mãos. Quem recebe bolsa família? Quase todas. E quem tem filho na universidade? Algumas levantam. E vocês acham que isso aconteceu por quê?

“- Porque essas melhorias são resultado de um governo que tem olhado pra as pessoas mais pobres desse país. A gente não pode esquecer disso. A elite brasileira não admite que filho de pobre estude em universidade e que eles possam viajar de avião. A imprensa e a televisão ficam manipulando as pessoas, dizendo que o problema é a corrupção que só acontece no governo do PT. Nunca falam dos outros governantes. Porque nunca olharam para a gente. Nós iremos para a rua novamente para defender as políticas que beneficiaram o semiárido e mudaram as vidas das pessoas e das mulheres”, disse ela.

Daí a Marcha sai da areia por uma estradinha de chão, por entre sítios da agricultura familiar, plantações de batata doce, mandioca, palma forrageira. Um pé de jaca carregado . Entra na Rodovia PB-121 ocupando as duas pistas e segue até a Praça Central de Areial. A população nas calçadas, em cima de muros, nas lajes, em todo canto vibrava com o movimento, a cantoria, os gritos de luta das mulheres do semiárido, que neste dia 8 de março mais uma vez fizeram a história desse país.

Levantamento da ASA comprova a rica diversidade das sementes do Semiárido

17, março, 2016 Sem comentários

“Ia com o pensamento que as famílias não guardavam sementes. Depois dos cursos, vimos que guardam demais da conta” | Foto: Arquivo Cáritas Diocesana de Araçuaí

 

ASA, 16/03/2016

Levantamento da ASA comprova a rica diversidade das sementes do Semiárido

Diante do cenário mundial da fome e má nutrição e dos efeitos das mudanças climáticas, o valor deste patrimônio genético extrapola os limites da região

Por Verônica Pragana – Asacom

Numa época em que um dos grandes problemas mundiais é a fome e a má nutrição de milhões de pessoas, o Semiárido brasileiro guarda e preserva uma grande variedade de sementes crioulas. A partir do processo de estocagem de água e sementes, a região vem se fortalecendo como um espaço de preservação e multiplicação de um importante patrimônio genético para a humanidade apesar de uma longa e intensa estiagem que acomete a região desde 2012. Um levantamento preliminar do Programa Sementes do Semiárido, da ASA, identificou milhares de variedades de 54 espécies alimentares e medicinais pesquisadas. Só de feijão de corda são 440 variedades, 335 de feijão comum, 322 de milho, 189 de fava, 116 de jerimum e 106 de batata doce.

Os dados foram coletados a partir de entrevistas com 7.380 famílias que vivem e produzem em 442 comunidades rurais de 179 municípios, que corresponde a quase 16% dos municípios do Semiárido. Quando concluída, a pesquisa vai abranger um total de 12,8 mil famílias envolvidas com o Programa Sementes do Semiárido e que desfrutam de água para consumo humano e para produção que foram disseminadas na região, principalmente, pela ASA.

Entre os fatores responsáveis pela situação de insegurança alimentar no planeta está a erosão genética. Há milhares de anos, há indícios da existência de sete mil espécies de plantas cultivadas ou coletadas. Atualmente, na base da alimentação mundial predominam quatro espécies: trigo, arroz, milho e batata, que fornecem mais de 60% da necessidade de energia que vem dos alimentos, segundo o documento em inglês intitulado “Recursos genéticos vegetais usá-los ou perdê-los”, publicado pela FAO.

Essa erosão tem uma forte relação com a mercantilização da alimentação. Como mercadoria, o alimento passa a ser produzido com custos cada vez mais baixos e lucros cada vez maiores para “um reduzido grupo de transnacionais ligadas ao setor do agronegócio, da indústria de alimentos e das redes de supermercados”, como afirma o editorial da Revista Agriculturas sobre alimentação adequada e saudável, publicada em dezembro de 2014.

Sementes de excelência

“Um dos grandes debates na produção de alimentos no mundo está associado aos desafios trazidos com as mudanças climáticas. Nele, as sementes adaptadas às regiões semiáridas e áridas, consideradas até então como grãos no Brasil, são altamente valorizadas pela ciência que quer estudar suas dinâmicas e características. De grão, elas passam a ser consideradas sementes de excelência”, ressalta Antônio Barbosa, coordenador dos Programas Uma Terra e Duas Águas (P1+2) e Sementes do Semiárido.

Glória Araújo, que representa a ASA Paraíba na Coordenação Executiva da ASA Brasil, lembra inclusive que quando as sementes crioulas eram consideradas de menos valor do que as das multinacionais, as famílias tinham vergonha e chegavam a escondê-las em casa. “Essa pesquisa vem visibilizar a cultura camponesa de guardar as sementes que são experimentadas, multiplicadas e selecionadas no agroecossistema familiar. E é através destas práticas que as famílias mostram a capacidade de resistência às ameaças a esse material genético, como as políticas públicas que continuam a valorizar as sementes externas”.

Os dados do levantamento referendam, inclusive, uma demanda antiga da sociedade civil com relação à política pública de distribuição de sementes: a diversificação das variedades entregues a partir das necessidades locais. “Hoje, são distribuídas quatro variedades de feijão, uma por região, e uma de milho, quando temos 322 variedades de milho que atendem a necessidades diversas das famílias agricultoras do Semiárido”, destaca Barbosa. Para Glória, essas informações desafiam as políticas públicas a reforçarem as práticas de preservação e multiplicação de sementes que estão na região há muito tempo.

Origem

Os dados apresentados revelam uma grata surpresa com relação à origem das sementes: 81,46% das sementes vieram da própria comunidade. A maioria delas (38,05%) foram herdadas dos pais, avós. Mas, a depender das espécies, essa origem varia. Enquanto as sementes de jerimum ou abóbora, que está na base da alimentação das famílias, 97,09% vêm da comunidade, as de hortaliças têm um significativo índice de aquisição em lojas. A alface, por exemplo, em 42,19% dos casos são compradas e 43,24% vem da comunidade.

“Antes do P1+2, quase todas as sementes de alface eram compradas”, destaca Barbosa evidenciando o processo de transformação que o Semiárido passa enquanto produtor de alimentos. A circulação das sementes na própria comunidade ou entre comunidades e regiões é uma estratégia que protege as sementes crioulas e é fortalecida pelos intercâmbios e encontros promovidos pelos programas da ASA.

Outra informação importante trazida pela sistematização dos dados diz respeito ao lugar de cultivo das espécies pesquisadas nas propriedades. Mais de 51% do material genético manejado pelas famílias estão no quintal, que é o espaço do entorno da casa que varia de 10 metros quadrados a meio hectare. E 44,9% no roçado das famílias. “Essa pesquisa revelou esse número todo de variedades de sementes tendo focado sua investigação em apenas dois subsistemas da propriedade. Imaginem se tivesse incluído todo o agroecossistema?”, destaca Glória.

A diversidade das comunidades

Entre as localidades pesquisadas, está a comunidade Cabral, na área rural do município de Pedro II, no Piauí, onde vive e produz a família de Antônio Alves Pereira e Francisca Francinete, ambos guardiões de sementes crioulas. Lá, foi construída uma casa de sementes comunitária para estocar o material genético que fica à disposição de todas as famílias da comunidade para plantio. A lógica da gestão das casas ou bancos de sementes é o empréstimo de uma quantidade e devolução de uma quantia maior, que não precisa ser, necessariamente, do mesmo tipo das sementes retiradas da casa, caso a colheita não tenha sido suficiente.

“O resgate das águas e das sementes são a melhor coisa que vi na vida”, declara seu Antônio, que, na região onde mora, é conhecido como Antônio Zifirino, por ser filho de Zifirino. “Antes das casas [comunitárias], já existiam as casas de famílias, que guardavam as sementes de plantar e os grãos de comer. Na década de 1970, deu uma seca forte, quando acabou os grãos comestíveis, as famílias iam pras sementes de plantar. As sementes que vão para as casas são iguais ao dinheiro que a gente coloca no banco e a gente esquece lá pra um dia poder pegar. Se ficasse em casa, a gente gastava tudo.”

Seu Antônio, que além de ser agricultor e guardião de sementes, é profeta da chuva e poeta, não imaginava que na sua comunidade tinha tantas variedades de semente. Ele reconhece que os intercâmbios ajudam bastante no resgate e ampliação do material genético local. “Com os intercâmbios, trazemos as sementes de outras comunidades e região pra cá. Se viver escondido, tem conhecimento?”.

O programa Sementes do Semiárido tem várias fases. A primeira é identificar as sementes ainda existentes. Com isso, as comunidades despertam para as sementes perdidas que precisam ser resgatadas. E a segunda fase incentiva a multiplicar o material genético que vai ser estocado nos bancos ou casas de sementes comunitárias para uso quando as famílias precisarem. Vale destacar que nem todas as sementes das famílias são armazenadas nos bancos comunitários. Lá, se guardam algumas variedades em grande quantidade para garantir o plantio. “O estoque da diversidade fica nas casas das famílias”, explica Barbosa.

“Cada comunidade faz a gente ficar mais besta. Ia com o pensamento que as famílias não guardavam sementes. Depois dos cursos, vimos que guardam demais da conta.” O depoimento é de Valteir Antunes, guardião de sementes da região do Vale de Jequitinhonha, em Minas Gerais. Ele é gestor do banco de sementes comunitário mais antigo de Minas, a Casa de Sementes da Gente e do Amor, na comunidade Caldeirão, em Itinga, onde vive. Essa casa é um verdadeiro banco de germoplasma, abriga mais de 120 variedades de milho, feijão, sementes nativas e hortaliças.

O conhecimento e experiência de Seu Valteir com relação às sementes crioulas o têm levado a visitar cerca de 60 comunidades ao longo do Rio Jequitinhonha. O principal motivo da sua andança é que ele assumiu o papel de facilitador das capacitações do Programa Sementes. E, desde então, seu Valteir passou a testemunhar o amor e carinho que cada família dedica às sementes crioulas. “A família guarda logo. São todas naturais”.

ASA e movimentos sociais divulgam carta em defesa do Semiárido

3, dezembro, 2015 Sem comentários

“O ajuste fiscal, se ele é necessário, que não se faça colocando a conta sob a responsabilidade dos mais pobres”

A Articulação do Semiárido Brasileiro, redes e movimentos sociais do país divulgaram carta aberta na qual explicitam que os notáveis avanços obtidos na qualidade de vidas das pessoas na última década foi fruto de muita luta e mobilização, apoiadas por políticas públicas adequadas. Agora, num contexto econômico que se anuncia adverso, o governo aponta cortes brutais do orçamento justamente sobre os programas sociais que mais contribuíram para essa grande transformação. Reafirmando seu compromisso com o povo do semiárido, as organizações apontam uma agenda prioritária para as políticas públicas para a região e cobram posicionamento do governo federal.

Confira aqui a carta SEMIÁRIDO VIVO – NENHUM DIREITO A MENOS!

VI Festa Estadual das Sementes da Paixão celebra conquistas na preservação das sementes e no campo das políticas públicas para a agroecologia

20, outubro, 2015 Sem comentários

ASA-PB, 20/10/2015

A Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba) realizou entre os dias 14 e 16 de outubro, a VI edição da “Festa Estadual das Sementes da Paixão”, que teve como lema: “Agricultura Familiar: guardiã da sociobiodiversidade, pela soberania alimentar, livre de transgênicos e agrotóxicos”. Os dois primeiros dias de evento foram realizados no Santuário de Padre Ibiapina, entre as cidades de Solânea e Arara-PB, na região do Polo da Borborema. Esta parte da programação foi dedicada à formação e reuniu mais de 350 agricultores e agricultoras das sete microrregiões da Paraíba onde a ASA-Paraíba está presente. Já o terceiro e último dia aconteceu em Campina Grande, com uma Feira Estadual de Sementes no centro da cidade. A ASA Paraíba é uma rede de mais 300 organizações que trabalham pelo fortalecimento da agricultura familiar de base agroecológica. Ela está ligada à Articulação Nacional do Semiárido (ASA Brasil) e as ASAs dos outros oito estados do Semiárido Brasileiro.

 

Abertura – A acolhida das caravanas foi realizada com trio de forró que animou a montagem da feira de sementes. No final da manhã foi realizada uma mística de abertura, que abordou os dois modelos de agricultura em disputa. Um primeiro, o do agronegócio, com as grandes corporações produtoras de transgênicos e agrotóxicos, a bancada ruralista e a pesquisa à serviço do agronegócio. E a do modelo de convivência com o Semiárido, que defende a agricultura familiar agroecológica e a soberania dos povos tradicionais. Uma homenagem aos mais de 30 convidados de outras ASAs estaduais foi feita com as diversas denominações que as sementes crioulas têm nos outros estados: “Sementes da Fartura”, “Sementes da Resistência”, “Sementes Nativas”, entre outras. Foram relembradas ainda os conteúdos e os resultados das festas anteriores.

 

Mesas de diálogo – No período da tarde, duas mesas de diálogo trouxeram, primeiro uma reflexão sobre as conquistas e os acúmulos dos últimos 20 anos de trabalho pela preservação e pelo fortalecimento das Sementes da Paixão no Estado e em todo o Semiárido, com depoimentos de guardiões e guardiãs e de lideranças agricultoras. Já a segunda mesa trouxe um panorama sobre a conjuntura atual das políticas públicas para as sementes e também as suas ameaças ou desafios. A agricultora e liderança do Polo a Borborema, Roselita Vitor, do Assentamento Queimadas, em Remígio-PB destacou o papel das famílias guardiãs para a humanidade: “Se os guardiões não existissem, a gente não teria o que comer, sem as sementes crioulas, a gente não vive, elas são a autonomia das famílias, garantia de saúde. A nossa luta é de resistência, devemos essa luta as agricultoras e agricultores. Se a gente não tivesse a experiência prática das Sementes das Paixão, nós não teríamos condições de enfrentar o modelo do agronegócio”, afirmou.

 

Gabriel Fernandes da AS-PTA debateu a conjuntura atual e ressaltou a importância da instituição de uma Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo), que pela primeira vez apontou a agroecologia e a agricultura familiar como um caminho viável para o desenvolvimento do país, fruto de uma luta histórica dos movimentos sociais como a ASA. Gabriel também ressaltou as contradições do governo que institucionalizou a agroecologia e ao mesmo tempo deu força para os transgênicos e aumentou os investimentos para o agronegócio.

 

O primeiro dia foi encerrado com um cine debate sobre a democratização da comunicação, com a exibição do vídeo “Levante sua voz”, do Coletivo de Comunicação Social Intervozes, e também se coletou assinaturas para o Projeto de Lei da Mídia Democrática.

Oficinas temáticas – No segundo dia de formação, os participantes se dividiram em sete oficinas sobre os seguintes temas: Gestão, Organização e Armazenamento das sementes nos Bancos de Sementes Comunitários (BSC); Integrando as sementes florestais e frutíferas nos BSC; Produção, Seleção das Sementes; Sementes dos animais; Produção das sementes de hortaliças; Beneficiamento de frutas nativas e adaptadas e Bancos de Germoplasma.

 

Cada oficina contou com a apresentação de uma experiência local e uma experiência vinda de outros territórios, a exemplo da Oficina “Integrando as sementes florestais e frutíferas nos BSC”. Com o objetivo de socializar conhecimentos de manejo, plantio, colheita, armazenamento das sementes florestais e frutíferas, foram apresentadas as experiências dos jovens coletores de sementes florestais da região do Polo da Borborema, na Paraíba e dos integrantes do Povo Xucurus do Ororubá do estado de Pernambuco.

Carta Política – Na tarde do segundo dia, dois jovens fizeram a leitura da carta política da VI Festa das Sementes da Paixão. O documento trouxe as principais reivindicações e conquistas ao longo do processo de trabalho da ASA Paraíba em torno da preservação e conservação das sementes crioulas. Segundo a carta “esse patrimônio inalienável constitui um bem comum, indispensável para a convivência com o Semiárido em bases agroecológicas para a garantia da soberania e segurança alimentar e nutricional e para enfrentar as mudanças climáticas”.

 

A carta também faz uma referência à Semana Mundial da Alimentação, período em que aconteceu a festa: “Na semana em que é celebrado o dia mundial da alimentação, juntamos nossas forças ao Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar) em defesa da comida de verdade no campo e na cidade”, continua o documento. A carta se posicionou ainda contra os ataques à democracia na conjuntura atual: “Nos manifestamos contra qualquer ameaça à democracia e a retirada de direitos duramente conquistados. Reafirmamos a necessidade de continuarmos ativos e vigilantes, mantendo a disposição para lutar em defesa dos princípios democráticos e pela agroecologia”.

 

Após esse momento, uma mesa de diálogo reuniu representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), da Secretaria de Estado da Agricultura Familiar e do Desenvolvimento do Semiárido da Paraíba, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

 

O Secretário de Agricultura Familiar da Paraíba, Lenildo Morais, anunciou iniciativas que a sua pasta está desenvolvendo no campo da agricultura familiar a exemplo da conclusão da cessão do espaço do Banco Mãe de Sementes de Lagoa Seca ao Polo da Borborema, dinâmica integrante da ASA Paraíba, onde deverá funcionar uma mini fábrica de cuscuz orgânico e livre de transgênico, com recursos do Projeto Cooperar. Também anunciou a implementação de 2 mil barragens subterrâneas no Cariri do Estado.

 

O gestor destacou ainda o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) voltado para Sementes de 2016, com um projeto com orçamento de 1,5 milhão de reais: “A prioridade deste projeto é fortalecer os bancos-mãe de sementes do estado da Paraíba. Pela primeira vez vamos adquirir sementes de fava, de arroz vermelho do Vale do Piancó. Queremos fazer com que as sementes de feijão e de milho que vocês produzem possam ser também adquiridas. Estamos concluindo o nosso projeto de produção de sementes e mudas crioulas para o próximo ano. O Governador não quer mais comprar sementes como as que vinham sendo compradas. A ideia é viabilizar um programa de sementes e de mudas que possam beneficiar os agricultores e agricultoras da Paraíba. Esse é o nosso compromisso, a ASA é quem vai estar conosco no dia a dia da condução desse processo”, finalizou.

 

Naidson Baptista Quintela da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil) e também representante do Consea em sua fala destacou o protagonismo da Paraíba no trabalho com as sementes da Paixão e os avanços dessa trajetória, entre eles o apoio dos programas de cisternas às casas de sementes e a criação do Programa Sementes do Semiárido: “É o exercício da política e da prática do estoque de água de consumo e de produção, de comida para os animais e de sementes de grãos e de animais que tem permitido ao povo viver bem no Semiárido nos momentos difíceis. Vocês sempre fizeram isso na Paraíba, é o que fazem, é o que celebram, vejam que isto aqui não é um encontro, é uma festa. Celebrar conquistas e se comprometer com o futuro”, disse. Naidson destacou ainda a pesquisa com 10 variedades de milho feita na Paraíba em parceria com a Embrapa Tabuleiros Costeiros que mostrou que as sementes dos agricultores apresentaram um resultado igual ou superior ao das variedades comerciais.

 

Após as falas e uma rodada de debate, Emanoel Dias, assessor técnico da AS-PTA e da rede de sementes da ASA Paraíba fez a entrega de uma carta destinada à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), assinada por todos os presentes à plenária. Na carta fez-se a denúncia de que o milho que a companhia vende a preços subsidiados para servir de alimento para os animais na Paraíba é transgênico. A comprovação veio depois que um teste rápido de transgenia foi feito com resultado positivo e em seguida as amostras foram enviadas a um laboratório nacional, que emitiu um laudo oficial comprovando a presença de transgênicos. A carta e o laudo foram entregues a Gustavo Guimarães, representante da Conab no evento. Segundo informação da própria companhia, apenas no ano de 2013, mais de 33 mil toneladas desses grãos foram comercializados na Paraíba. No Nordeste foram mais 400 toneladas no mesmo período.

 

Atos em Campina Grande – O terceiro e último dia da festa agricultoras e agricultores da Paraíba promoveram três atos simultâneos em defesa das sementes da paixão. Na Embrapa Algodão, exigiram pesquisas adaptadas à realidade da agricultura familiar e da agroecologia. Na Conab, pediram o fim da distribuição de milho transgênico, em uma empresa de cuscuz, alertaram à população sobre a necessidade de sabermos o que estamos comendo, com a permanência da rotulagem dos transgênicos. Após os três atos, foi aberta, na Praça Clementino Procópio, no Centro de Campina Grande, a Feira Estadual das Sementes da Paixão, que contou com a participação de mais de mil pessoas, vindas de todas as regiões do estado.

 

Representantes da Articulação do Semiárido Paraibano falaram sobre a importância da feira e das sementes da paixão para o povo do semiárido. “Agricultores e Agricultoras de todo o semiárido brasileiro estiveram reunidos durante esses três dias discutindo suas conquistas e levantando os desafios para continuar a luta, a favor de uma comida livre de transgênicos e agrotóxicos, livre da dominação e exploração das mulheres, uma garantia através das sementes da paixão”, disse Madalena Medeiros da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Paraíba). A coordenadora da ASA Paraíba, Maria da Glória Batista também falou sobre o papel que as políticas públicas de conivência com o semiárido têm desempenhado para a o fortalecimento da segurança e soberania alimentar.

 

Além da troca de sementes os agricultores e agricultoras também comercializaram seus produtos, entre eles as mudas de plantas medicinais, artesanatos, frutas, verduras, legumes, bolos, canjicas, doces, iogurtes e tapiocas. O grupo de mulheres do Assentamento Socorro, da cidade de Areia, produz bolos, doces e brigadeiros, todos feitos com banana, mas a novidade produzida pelo grupo “Doces Socorro” é a banana chips, um salgado feito com banana verde e sal. “Começamos a fazer depois de um curso lá na comunidade, ele tem o sabor de um salgado de batata e as pessoas gostam muito”, afirmou a integrante Josefa Teixeira. Na feira houve espaço ainda para testes rápidos de transgenia, com distribuição de certificados de “Livre de Transgênicos” para os guardiões que levaram as suas sementes para serem testadas.

 

A feira foi encerrada com uma benção inter-religiosa com representantes de praticantes de diversas religiões. A água, as sementes, a terra e a palma foram alguns elementos utilizados na benção para simbolizar a importância das sementes da paixão para as diversas comunidades, elementos que são essenciais para que a semente cresça e germine, garantindo alimento saudáveis as famílias agricultoras.

 

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Começa hoje em Arara, Paraíba, a VI Festa Estadual da Semente da Paixão

14, outubro, 2015 Sem comentários

PROGRAMAÇÃO

Dia 14 de outubro, quarta-feira

9h – Chegada e Inscrição dos participantes | Montagem da feira de sementes | Mística de abertura

10h – Abertura Oficial da Festa Estadual das Sementes da Paixão

Mesa 1: Oportunidade de afirmar os princípios, conquistas e os desafios do trabalho da Rede de Bancos Comunitários de Sementes da ASA Paraíba

Mesa 2: Panorama das políticas publicas conquistas e ameaças à agrobiodiversidade no contexto do semiárido brasileiro

Painelista: Gabriel Fernandes (AS-PTA, CNAPO)

19h – Vídeo-debate sobre a Democratização da Comunicação

20h – Abertura da Feira de Sementes das Sementes (Forro na Feira)

Museu de Padre ibiapina | Barracas com testes de transgenia e emissão de certificado livre de transgênicos

Dia 15 de outubro, quinta-feira

8h – Mística de abertura e início das atividades

Fala de abertura e orientações para divisão dos grupos;

Oficina 1: Gestão, Organização e Armazenamento das sementes nos BSC;

Oficina 2: Integrando as sementes florestais e frutíferas nos BSC;

Oficina 3: Produção, Seleção e Comercialização das Sementes – Foco PAA;

Oficina 4: Sementes dos animais;

Oficina 5: Produção das sementes de hortaliças;

Oficina 6: Beneficiamento de frutas nativas e adaptadas;

Oficina 7: Armazenamento e abertura de unidades conservadoras de material genético (bancos de germoplasma);

14h – Socialização das Oficinas

15h – Mesa de Diálogo com gestores públicos:

Dialogo com as políticas de sementes no semiárido, avanços e desafios para construção de políticas publicas

Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)

Governo do Estado da Paraíba

Secretaria de Agricultura Familiar do Estado da Paraíba

Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea)

Programa Sementes do Semiárido

Embrapa

Dia 16 de outubro, sexta-feira

9h – Atos simultâneos de denúncia em Campina Grande-PB

10h – Feira Estadual das Sementes da Paixão na Praça Clementino Procópio

13h – Benção inter-religiosa das Sementes da Paixão

14h – Almoço e retorno das Caravanas.

 

 

Sementes do Semiárido

21, setembro, 2015 Sem comentários

ASA e INSA avaliam importância da agroecologia no combate à desertificação

18, agosto, 2015 Sem comentários
Canal Ciência, 17/08/2015

Pesquisa realizada a partir de parceria entre a Articulação do Semiárido e o Instituto Nacional do Semiárido avalia importância da agroecologia no combate à desertificação

O que é a pesquisa?

O combate à desertificação provocada pelo mal uso da terra e pelas mudanças climáticas na região semiárida do Brasil devem ser uma prioridade para a sociedade, pois essa região abriga mais de 23 milhões de brasileiros, sendo que 8,6 milhões residem em áreas rurais e 14,7 milhões em áreas urbanas. Parcela significativa da população vive a realidade do meio rural, uma vez que 90% dos municípios de região semiárida são pequenos, apresentando menos de 50 mil habitantes. A região semiárida possui cerca de 1,7 milhões de estabelecimentos rurais, sendo 1 milhão com tamanho inferior a  5 ha (aproximadamente cinco campos de futebol) , mas que respondem por 31% da produção agropecuária da região. O uso intensivo da terra é a principal causa da desertificação, sendo urgente a implementação de projetos e ações adequados à situação em que se encontra a região.

Para a criação de políticas de desenvolvimento mais efetivas para a região, são necessários projetos que busquem conhecer e mapear as metodologias inovadoras adotadas pela população para conviver com a seca e para obter produção agrícola sustentável nas condições climáticas do semiárido. Esse mapeamento é necessário para que ações pontuais de sucesso possam ser multiplicadas, alcançando um número cada vez maior de agricultores e propriedades rurais, propiciando melhoria da renda da população sem agredir o meio ambiente.

Com objetivo de oferecer alternativas para uma produção sustentável no semiárido, pesquisadores do Instituto Nacional do Semiárido (Insa/MCTI), em cooperação com a Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), vêm desenvolvendo estudos socioeconômicos e ecológicos em 100 propriedades rurais agroecológicas (aquelas que utilizam práticas de cultivo que não agridem o meio ambiente) de nove estados da região, para que se tenha conhecimento das estratégias agrícolas, sociais e econômicas utilizadas pelos agricultores, as quais têm possibilitado a eles resistirem e recuperarem-se dos impactos provocados pelos eventos ambientais extremos associados às mudanças climáticas.

Como é feita a pesquisa?

A pesquisa envolve a participação dos agricultores, que avaliam suas propriedades e o meio ambiente em relação às suas práticas e capacidades de adaptação e recuperação após um período de seca. Os agricultores foram selecionados com a ajuda de organizações sociais não governamentais que trabalham com agricultura sustentável, boas práticas de produção agrícola adaptadas ao clima semiárido e ações de combate à desertificação. Também têm sido identificadas as estratégias utilizadas pelas famílias de agricultores para enfrentar as situações difíceis impostas pelos eventos ambientais extremos (por exemplo, a formação de cooperativas) e manter-se produtivas na comunidade. Os pesquisadores e agricultores promovem, junto às comunidades, debates sobre as ações mais importantes que explicam a capacidade adaptativa dos agricultores e do ambiente aos eventos extremos. Os resultados são compartilhados entre as famílias de agricultores participantes do projeto por meio de reuniões, seminários e trocas de experiências.

Qual a importância da pesquisa?

Ao final do projeto, os pesquisadores esperam ter um valioso conjunto de dados sobre o desempenho e potencialidade dos sistemas de produção familiar da região, bem como avaliadas as inovações tecnológicas identificadas ao longo do estudo. Esses dados servirão como subsídio para o desenvolvimento e disseminação de práticas agrícolas mais eficientes e viáveis para a região semiárida, indicando suas vantagens e desvantagens. Além das organizações sociais, instituições de pesquisas e os órgãos de extensão rural estaduais ajudarão a repercutir os resultados, promovendo uma aplicação mais ampla deles. De forma mais abrangente, esses resultados, em conjunto com outras atividades de pesquisa que vêm sendo realizadas, contribuirão para a consolidação da cooperação entres os diversos atores sociais (comunidades de agricultores, organizações sociais, extensionistas e instituições de pesquisa).

Publicado em 17 de agosto de 2015.

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“As sementes são bens culturais”, diz presidenta do Consea

15, março, 2015 Sem comentários

 

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Informe Consea, 12/03/2015

O Programa Sementes do Semiárido foi lançado nesta quarta-feira (11/03) em Gravatá (PE), com a presença da ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Tereza Campello, da presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Maria Emília Pacheco, e da Coordenação da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), entre outros representantes do governo e da sociedade civil.

Segundo Maria Emília, o projeto reconhece a cultura do estoque das sementes “como a lógica da cultura camponesa e familiar”. “As sementes são bens culturais”, disse a presidenta do Consea. “Essa estratégia de guardar e multiplicar está ligada à agricultura familiar”

Já a ministra Tereza Campello ressaltou que a ação para a criação de 640 unidades no semiárido é fruto da experiência do homem do campo. “Estamos transformando em política pública o saber do agricultor do semiárido, que sabe preservar suas sementes e a escolher sempre as melhores”.

A ação vai atender pelo menos 12,8 mil famílias rurais que fazem parte do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, que já receberam cisternas de consumo e de produção por meio Programa Água Para Todos e que tenham a Declaração de Aptidão do Pronaf (DAP).

Segundo a ministra, o projeto “vai mudar a região e garantir que o agricultor não saia da sua propriedade”. Nos bancos comunitários, os agricultores familiares do Semiárido podem retirar sementes de qualidade, sem modificação genética e adaptadas às regiões, com maior produtividade. “Semente é autonomia e liberdade para o agricultor. Esta ação é um investimento para o futuro. Vamos ampliar este conhecimento para que não fique isolado”.

A ministra destacou ainda que o programa e a parceria com a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) “rede de organizações responsável pela execução do projeto” não foram criados por acaso. “Essas ações resultam da decisão do governo em trabalhar com o agricultor do Semiárido, com os mais pobres, para garantir o acesso à água e a sementes”, lembrou ela, ao falar da entrega de mais de 1,1 milhão de cisternas de água para consumo humano no semiárido. No mesmo período, foram implantadas 112 mil tecnologias sociais de captação de água da chuva para apoiar a produção.

Segundo o coordenador da ASA, que também é presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional da Bahia (Consea-BA) e conselheiro nacional do Consea, Naidison Baptista, a experiência do banco de sementes “é uma ação que nasce na comunidade”. “Os agricultores familiares são produtores de conhecimento e têm capacidade de orientar seus destinos”, destacou.

Com informações da AsaCom/ASA

Pesquisa mostra como famílias do semiárido acharam soluções para a seca

5, fevereiro, 2015 Sem comentários

G1, por Amelia Gonzalez

A boa notícia chegou lá do semiárido, via e-mail mandado por organizações da sociedade civil. É que os primeiros resultados de uma pesquisa qualitativa, que vem sendo feita há dois anos, acompanhando a vida de cem famílias, mostram que já há agricultores familiares conseguindo se manter bem, como bons produtores, apesar de a região continuar sendo castigada por uma seca cruel. Com isso o movimento migratório, que nos anos 70 era a única saída para muitos que buscavam livrar-se de uma economia estagnada pela carência de tudo, tem diminuído bastante.

Lembrei-me de que foi naquele tempo que, em 1972, quando vivíamos por aqui o período da ditadura militar, uma revista em quadrinhos lançada pela editora Codecri começou a circular e a ser vorazmente consumida por estudantes e opositores do regime. Chamava-se “Fradim”, era escrita e desenhada por Henfil, e tinha entre os personagens o Bode Orelana, a Graúna, o nordestino Zeferino, os frades Cumprido e Baixim. As histórias eram vividas num sertão nordestino, àquela época cheio de privações.

A crítica aos costumes da classe média enlevada pela farsa de segurança e tranquilidade transmitida pelo governo militar e ao cerceamento da liberdade era feita com humor, tendo como cenário o bioma caatinga, semiárido brasileiro, na região nordeste do país.

Na mesma época, a Revolução Verde se espalhava também com falsas promessas, de conseguir ampliar a produção de alimentos usando pesticidas ou importando plantas e bichos de uma região para outra sem atentar para detalhes como inadaptação ao ambiente. Não foi preciso muito tempo para que as doenças causadas pelo excesso de defensivos começassem a se alastrar e para que o prejuízo causado pelos erros ambientais pusesse as contas no vermelho.

Transformação socioambiental
É bom relembrar esses fatos para entender a importância da transformação socioambiental daquele bioma. Quando recebi o e-mail, que falava em estratégias ecológicas e sociais implementadas pelos agricultores familiares, busquei contato com as duas organizações responsáveis pelo estudo: a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e o Instituto Nacional do Semiárido.

Conversei, por telefone, com Luciano Marçal, da AS-PTA, entidade que integra a ASA. Como não podia deixar de ser, a conversa começou pelo clima: era bem pouco provável supor, há trinta anos, que o Sudeste estivesse vivendo uma seca semelhante à que flagela o semiárido desde sempre. Mas, nem de longe, estamos vivendo ainda situação igual àquela.

“Pelas características da região, todos os anos temos aqui um período chuvoso bem marcado, de 4 a 5 meses, e estiagem de 7 a 8 meses. De dez em dez anos, no entanto, temos uma seca mais prolongada, como está acontecendo agora. Mas, dentro deste cenário, estamos vivendo a seca mais severa dos últimos 50 anos. Com chuvas muito abaixo da média”, contou-me Luciano, detalhando ainda um pouco mais sobre a região, que tem hoje 1,7 milhão de famílias de agricultores.

Eis a questão. Com a terra esturricada pela falta de chuva, de que maneira é possível pensar em continuar produzindo alimentos e criando gado? Com a ajuda governamental, sim, que há anos vem fornecendo um dinheiro muito bem-vindo, via programas de transferência de renda, que tem sido a salvação nos dias de total privação.

Mas, além disso, organizando-se em associações, com muito método. Só assim é possível explicar, por exemplo, o dado estatístico que tem deixado muitos agricultores da região bastante orgulhosos: 35% da agricultura familiar do Brasil vêm do semiárido.

“Esse é um dado importante, mas presta atenção em outro dado: essas 1,7 milhão de famílias do semiárido, que produzem esse montante de alimentos, ocupam apenas 5% da terra da região. O restante é ocupado por grandes agricultores. O acesso à terra segue sendo uma demanda que precisa ser mais bem resolvida pelo governo”, disse Luciano.

Enfrentar a seca
Quem tem sua terrinha, porém, não quer mais sair de lá, como no passado. A capacidade de recuperar sua produção assim que passa o período de estiagem tem motivado as famílias, garante Luciano. E isso começou a ser conquistado com o programa de cisternas rurais, um equipamento de fácil construção que há quase 15 anos vem oferecendo solução rápida para enfrentar a seca estocando água da chuva. Hoje, mesmo nos períodos de seca, também não se vê mais as cenas que eram comuns, de saques a supermercado por causa da fome.

“Os fluxos migratórios, de fato, diminuíram muito. Nosso trabalho, com essa pesquisa que estamos começando agora a divulgar, foi entender quais mudanças estruturais permitiram que as famílias melhorassem sua produção. Há o papel das políticas sociais de transferência de renda do governo e há também um conjunto de inovações que ajudaram os agricultores a estocar sementes e uma parte do rebanho para continuar a produção quando a chuva chegar”, disse Luciano. Ele explica que, a essa capacidade de as famílias se recomporem rapidamente os pesquisadores deram o nome de resiliência.

O mais importante desse processo, disse o representante da ASA, foi a descoberta que a sociedade civil fez, de que as famílias precisam de soluções locais, desconcentradas.  Além de as cisternas promoverem acesso à água de qualidade também para beber e cozinhar, outro benefício importante foi dar mais tempo às mulheres.

Elas sempre tiveram o papel de ir buscar água, geralmente em poços que ficavam muito longe da casa, o que lhes tirava o convívio com os filhos e a possibilidade de ajudar em outras tarefas, como a de cuidar de um quintal diversificado com pequenas plantações de hortaliças, criação de aves, abelhas e outros pequenos animais, como cabra, que ajudam a manter o sistema produtivo.

A solução no próprio semiárido
O último censo mostrou que existem 700 mil cisternas construídas, mas Luciano Marçal acredita que esse número já seja muito maior e esteja na casa de 1 milhão. Resumindo: a pesquisa mostra que a solução do semiárido está no próprio semiárido, disse ele.

Perguntei se o desejo é fazer expandir a região e atrair mais empresas de grande porte para proporcionar o desenvolvimento “as usual”. Marçal prefere dizer que, antes, é preciso dar força e desenvolver os mercados locais, num movimento de baixo para cima.

“Tem até casos como a Puma, que vem aqui comprar algodão colorido orgânico de produtores da região. Mas o que vai transformar de fato a realidade é a força que se dá aos produtores locais. Programas de governo, como aquele que obriga as escolas a usarem produtos daqui na merenda, são fundamentais não só para a economia como também para fortalecer a cultura ambiental. Acredita que havia escolas que davam salsicha com macarrão para as crianças comerem no almoço? Agora elas têm até doce de umbu na sobremesa, produzido aqui”, conta Luciano.

É um modelo muito semelhante ao que os idealizadores de um sistema econômico diferente pensam para enfrentar os tempos que virão. Tornando as comunidades mais capazes é possível imaginar que as soluções possam ser pensadas exatamente onde nascem os problemas. Não em escritórios longínquos, aclimatados, que conhecem bastante a teoria, mas pouco a prática.

Fotos: Quadrinho do Henfil (Reprodução/Globonews)Luciano Marçal (Ana Lira/Acervo ASA)

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